O VGD é um lo­cal mar­ca­do por inú­me­ras vi­vên­cias, his­tó­rias e ex­pe­riên­cias, pe­lo ima­gi­ná­rio po­pu­lar, con­fi­gu­ran­do-se co­mo um im­por­tan­te fa­tor iden­ti­tá­rio que não de­ve ser ­ignorado


Como torcedor do Londrina Esporte Clube (LEC) venho acompanhando o noticiário esportivo dos últimos meses e, como profissional, discutindo questões relacionadas ao Patrimônio Histórico e Cultural de Londrina. Aproximando a paixão com a profissão, está o Estádio Vitorino Gonçalves Dias (VGD), referência, símbolo e casa do time de coração de muitos, e marco arquitetônico e paisagístico para todos.
Vamos aos fatos: no ano de 2009 o torcedor do Tubarão ficou apreensivo, não apenas pelo rebaixamento à segunda divisão do Campeonato Paranaense ou pelo insucesso na disputa da Série D do Campeonato Brasileiro, mas principalmente pelas incertezas que pairaram sobre o clube: afastamento judicial do então presidente Peter Silva; cancelamento, solicitado pela Justiça do Trabalho, das eleições para a diretoria do clube; nomeação do então interventor, Rubens Moretti, a gestor; e a disputa entre dois grupos privados que tinham interesse na administração do clube: SM Esportes e Universe, com vitória do último.
A demora da definição do grupo que assumiria o LEC levou a montagem de um time fraco, que treinou fora da cidade, em Campo Mourão e que foi eliminado da Copa do Brasil jogando também fora, em Paranavaí, mesmo com Londrina contando com dois tradicionais estádios de futebol: o Estádio do Café, local próprio para grandes espetáculos futebolísticos, e o VGD, ''Arena do Tubarão''.
Paralelamente, vimos notícias de que a Prefeitura de Londrina estava interessada em vender o VGD e, com os recursos, construir moradias populares para a população mais pobre de Londrina. Bom fim, mas com meios duvidosos. Será que, como diria Maquiavel, os fins justificam os meios? Penso que não. O VGD está localizado em uma área privilegiada da cidade, que tende a se valorizar, principalmente com o projeto de revitalização da rua Sergipe, importante movimento quem vem ganhando força e que conta com a participação da sociedade civil organizada, e da construção do Teatro Municipal.
Lembro ainda que o estádio está localizado próximo ao Terminal Rodoviário, a Maternidade Municipal e a um supermercado de grande porte. Será que haveria interesses imobiliários na comercialização do espaço? Por outro lado, o VGD é um local marcado por inúmeras vivências, histórias e experiências, pelo imaginário popular, configurando-se como um importante fator identitário que não deve ser ignorado, antes valorizado. Assim, o estádio deveria ser tombado, no sentido de garantia de sua preservação física, manutenção e uso, e não literalmente tombado, no sentido de ser deitado ao chão, declinado ou ser derrubado.
Neste sentido, acredito que torcedores, esportistas, políticos e a comunidade em geral deveriam iniciar um movimento para salvar o VGD, antes que seja tarde. Não percamos de vista o que ocorreu com o Calçadão de Londrina, marco paisagístico, descaracterizado sem o devido debate e que não contou com a defesa apropriada de lojistas, consumidores, transeuntes e sociedade civil organizada. O mesmo risco está correndo os mercados municipais, importantes espaços de sociabilidade, de práticas, de experiências e vivências.
Temo que em breve estejamos olhando para o passado e falando destes espaços com a mesma nostalgia que falamos da antiga Catedral: o Calçadão, o VGD, os mercados municipais, eram tão bonitos, tão importantes... por que será que derrubaram e construíram de novo? Por que será que deixaram isso acontecer?
LEANDRO HENRIQUE MAGALHÃES é professor e coordenador-geral acadêmico de Ensio a Distância da UniFil Virtual em Londrina

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