Sejamos profetas defensores da água e denunciadores do desperdício, do desmatamento, da falta de saneamento, da mercantilização da água


Dia 22 de março é dia da água. As geleiras derretem, o mar avança, as enchentes e secas castigam a terra, rios secam, fontes e poços estão poluídos, as brigas a respeito de hidrelétricas, barragens, esgotos, agrotóxicos, indústrias poluentes se acirram cada vez mais. Como é urgente salvar a água para salvar a vida no planeta.
Benditos sejam os lagos, as nascentes, o lençol freático, os mangues, as cisternas, as águas da chuva, as cascatas, as águas termais. Os rios são nossos irmãos, a água é a alma e o sangue da terra. Transformemos os desertos em jardins. A água da placenta sustentou nossa vida no útero e as águas batismais nos transformaram em filhos e filhas de Deus.
A água é para todos, é nossa, é um direito de todos, um bem comum. Não é mercadoria nem privilégio de alguns. Isso tudo alimenta a guerra pela água. Há pecados contra a água como: o desperdício, o desmatamento, os esgotos, os dejetos de granjas, o lixo, os poluentes. Que as lágrimas do arrependimento lavem nossos corações e nossas consciências desses pecados e nos convertam em anjos zeladores da água.
O manancial da vida é Deus Criador que nos presenteou com a água ''útil, humilde, preciosa e casta'' (São Francisco). Dentro de nós jorram rios de água vida e cada pessoa é uma fonte de potencialidades. Quantos de nós bebemos em cisternas poluídas que só aumentam a sede, provocam doenças, e matam a vida. No fundo do poço ainda podemos encontrar a fonte que diz: eu tenho sede de ti.
Sejamos profetas defensores da água e denunciadores do desperdício, do desmatamento, da falta de saneamento, da mercantilização da água. Desde 1968 temos a ''Carta da Água'' e temos também os ''Comitês de Bacia''. Leis não faltam, mas quem deve pagar altas taxas deve ser o poluidor. É hora de reconstruir nossa casa comum, o planeta que geme e sofre pela devoção, depredação, desertificação e destruição. Sem mudança de mentalidade e de estilo de vida, dias piores virão e tudo por conta de um progresso econômico, técnico, mas, destruidor. Ou mudamos ou pereceremos.
Águas brotaram do rochedo em Meriba e do Coração de Jesus transpassado pela lança. O Mar Vermelho, o rio Jordão, o poço de Jacó, o Lago de Genesaré, o Milagre de Caná, são marcos indeléveis na história da salvação. Salvemos nossos mares, rios, fontes. Não podemos ser surfistas nas questões relativas à água, mas, mergulhadores. O bom senso, a consciência reta, a fé autêntica convergem e somam na defesa e no valor da água.
O grito das águas, o ''bramido do mar'' (Lc 21, 25) constituem um forte sinal dos tempos. Este grito foi abafado na Conferência de Copenhagen, porque o lucro falou mais alto, embora gere a morte. O mercado faz um alarde a respeito da escassez da água para torná-la mercadoria e justificar a comercialização. A água sustenta a irrigação, a energia, a pesca, a navegação, a indústria, a saúde, a ecologia. Sabemos a água e o futuro do mundo será salvo. Água é vida, é futuro, é esperança, é tesouro inestimável.
É preciso navegar até chegar ao porto seguro. Não podemos morrer na praia e nem de afogamento. A gripe A para ser vencida depende das mãos lavadas e a superação da epidemia da dengue requer cuidados com água parada. A questão da água é onipresente. Quem ama cuida. Cuidemos da água da torneira, do chuveiro, dos córregos, das chuvas. Para limpar calçadas peguemos a vassoura, assim, zelaremos pela água. Falemos da importância da água para as pessoas e ensinemos as novas gerações a salvar a água. Jesus ao morrer disse: ''Tenho sede''. Vamos saciar a sede de Deus, vivendo corretamente e preservando a criação.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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