ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de março de 2010
Luis Miguel Luzio dos Santos 
As cooperativas de Socioeconomia Solidária geram benefícios como o fortalecimento de comunidades, o companheirismo, o resgate da dignidade humana
A Campanha da Fraternidade deste ano vem discutir a questão econômica, o que toca na gênese de boa parte dos problemas que afligem a sociedade moderna como o desemprego e o subemprego e todos os seus desdobramentos. O sistema econômico atual tem no individualismo e na concentração de poder e riqueza os seus elementos fundamentais de sustentação, o que tem conduzido ao agravamento da problemática socioambiental em todo o mundo e vem atingindo parâmetros insustentáveis.
Em 2000 havia no mundo cerca de 842 milhões de famintos. Em 2008 esse número já ultrapassava 923 milhões. Tudo isso num dos períodos de maior crescimento econômico mundial, mas com acelerada concentração de riqueza. Em 1960 os 20% mais ricos possuíam 30 vezes mais renda que os 20% mais pobres. Já em 2000 essa diferença subiu para 70 vezes. O caso brasileiro é ainda mais acentuado: os 10% mais ricos detêm 75,4% de todas as riquezas do País (Ipea 2009).
Como resposta a este cenário conflituoso e perverso surgem propostas de novos modelos de economia e de sociabilidade amparados em ideais de cooperação, solidariedade e sustentabilidade sistêmica. A Socioeconomia Solidária vem como uma das mais vigorosas experiências em prol de uma nova economia, trocando o individual pelo coletivo, a competição pela cooperação e a exploração pela solidariedade.
A origem das iniciativas de Socioeconomia Solidária perde-se na história e encontra nos textos bíblicos relativos às primeiras experiências de convivência cristã, algumas das iniciativas mais ricas em termos de solidariedade humana, como atesta o trecho bíblico: ''E todos que tinham fé viviam unidos, tendo todos os bens em comum. Vendiam as propriedades e os bens e dividiam com todos, segundo a necessidade de cada um'' (Atos 2,44-45). A diferença entre estes pioneiros e os movimentos mais recentes, além do arcabouço técnico e do conhecimento acumulado, é o esforço atual em criarem-se redes complementares integrando as diferentes cooperativas, o Estado, universidades, ONGs e movimentos sociais.
A característica essencial das cooperativas de Socioeconomia Solidária e que as distingue das cooperativas tradicionais é a união entre propriedade e trabalho, ou seja, quem trabalha na cooperativa é proprietário e quem é proprietário trabalha na cooperativa. Este modelo organizacional apoia-se na articulação entre empreendimentos complementares num processo em cadeia que conecta fornecedores, produtores e consumidores. Estas iniciativas vêm-se notabilizando como instrumentos efetivos contra o desemprego e a exclusão social, já que privilegiam a inclusão de um número cada vez maior de trabalhadores, em vez de visarem à maximização infinita dos seus lucros. Destacam-se por manter um efeito igualitário direto sobre a distribuição da riqueza na economia, o que estimula o crescimento econômico ao ampliar a base de consumidores, além de uma maior coesão social.
Entre as várias iniciativas de Socioeconomia Solidária espalhadas pelo mundo, é emblemático o caso do Complexo Cooperativo de Mondragon na Espanha, criado em 1956, num período de forte crise econômica, pelo padre José Maria Arizmendiarrieta e que conta atualmente com cerca de 70 mil trabalhadores - proprietários numa rede de mais de 200 cooperativas integradas, transformando-se num dos grupos mais fortes de toda a Europa.
Ao trazerem a democracia participativa para o âmbito econômico, as cooperativas de Socioeconomia estendem o princípio da cidadania à gestão de empresas, subjugando o econômico aos interesses sociais. Além do mais, as cooperativas de Socioeconomia Solidária geram benefícios além do econômico para os seus membros, como o fortalecimento de comunidades, o companheirismo, o resgate da dignidade humana e o espírito cívico em prol do bem comum e o desenvolvimento de uma cultura solidária que coloca o ser humano no centro das prioridades, ainda mais, quando este tem sido historicamente alvo de exploração, exclusão e indiferença.
LUIS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciência Sociais e professor do departamento de administração da Universidade Estadual de Londrina


