ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de março de 2010
José Mauricio Bigati 
'Toda a sociedade deve falar sobre o crack e estar advertida dos seus malefícios para poder dizer não quando ele aparecer'
Em fevereiro foi divulgado um plano de combate ao uso do crack pelo Ministério de Saúde que pretende investir R$ 110 milhões para atender 12 mil adictos e criar 2,5 mil leitos hospitalares para esta clientela. O uso de substâncias psicoativas sempre fez parte da cultura humana. Vivemos numa sociedade adicta, seja de drogas lícitas ou ilícitas. O crack começou a circular há pouco mais de 10 anos e segue num ritmo crescente. No Rio de Janeiro, por exemplo, o consumo aumentou 600% de 2008 a 2009 segundo jornal ''O Globo''. Se o consumo do crack outrora ocupava privilegiadamente o espaço das grandes cidades, hoje avaliamos sua disseminação.
A droga tem sido consumida por homens e mulheres, de diferentes faixas etárias, educação ou poder aquisitivo. Afeta desde os adolescentes que têm na contravenção a sede de novas experiências até pais e mães de família, trabalhadores, executivos, etc. Consumido tanto em pedra como em pó, ou no cachimbo ou fumado em cigarro junto ao tabaco, maconha, etc., o crack geralmente é encontrado nas ''bocas'', mas é possível comprá-lo também por telefone e recebê-lo em casa, tal qual uma pizza.
A força do crack, o seu poder em causar dependência e a respectiva devastação psíquica por ele causada é incomparável às outras drogas. Os usuários são conhecidos como os ''nóias'', referência explícita à paranóia, esta, um diagnóstico no campo das psicoses onde a inquietação, a perseguição e o medo são alguns dos fenômenos característicos. Observa-se dentre os adictos que o efeito do consumo não combina com a fome e nem com cuidados pessoais na medida em que aumenta o grau da dependência química. Não é raro que um usuário se torne mendigo em pouco tempo, vendendo tudo o que tem para consumir a droga.
A abstinência, síndrome popularmente conhecida por ''fissura'' e caracterizada pela necessidade do adicto em novamente consumir a droga, em se tratando do crack é motivo de reações enlouquecidas e violentas. Já ouvi relato de adicto que incendiou o carro do cônjugue por motivo corriqueiro, de pais que tiveram de expulsar os filhos que assaltavam a própria casa para comprar a droga, mãe de família que deixou casa, esposo e os filhos por vários dias confinados em consumo. É muito provável que boa parte dos crimes hoje praticados nas cidades tenha íntima relação com o uso desta droga, pois na tentativa de roubar qualquer valor na expectativa do consumo, tira-se uma vida sem nenhum pesar. Existe um sem-número de mortes de dependentes que não tiveram como quitar suas pendências com o tráfico e foram executados cruelmente para servirem de exemplo.
Como aponta o Ministério, o crack é um problema grave de saúde; mas é também uma questão de segurança pública. Será necessária a articulação entre os ministérios juntamente com todo o aparato social existente nas comunidades. É um problema complexo cujas ressonâncias não podem mais tardar em ser interpretadas e uma ação coletiva desencadeada. Toda a sociedade deve falar sobre o crack e ser advertida dos seus malefícios para poder dizer não a ele.
É urgente que ajamos principalmente em direção aos adolescentes, estimulando o contraturno escolar, oferecendo atividades, oficinas de esporte e cultura em geral, instrumentos que possam fazer frente à desocupação do jovem que se torna presa fácil do consumo e do tráfico. Existem adolescentes que moram próximos ao centro da cidade que têm como referência única de poder e dinheiro o traficante do seu bairro, e que quando brincam de polícia e ladrão preferem sempre fugir. É preciso mostrar outro caminho, outros destinos, e a presença de um educador, músico, desportista, artesão, etc., apresenta aos adolescentes novas possibilidades de laço com a cultura, com a vida e consigo mesmo.
O crack não é uma droga qualquer. É importante que o encaremos para prevenir o crescente número de famílias devastadas, vidas ceifadas e para que toda sociedade não se torne cada vez mais refém da violência e dos estragos avassaladores desta nova epidemia.
JOSÉ MAURICIO BIGATI é mestre em pesquisa e clínica psicanalítica pela UERJ e psicanalista em Ibiporã


