ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Benilson Borinelli e <br>Sinival Osório Pitaguari 
'A consolidação de uma economia solidária traz importantes consequências sociais como o fortalecimento da economia local, a redução da pobreza e da violência'
Ao eleger ''Economia e Vida'' como tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, o Conselho Nacional de Igreja Cristãs do Brasil lançou luz sobre os movimentos e iniciativas engajados há tempos com a construção de uma nova economia, a exemplo da Economia Solidária (ES). Contudo, como em tantas outras cidades, em Londrina a ES ainda é desconhecida para a grande maioria da população.
A crise econômica, social e moral que vigora desde o final dos anos 1970, alavancou uma diversidade de modelos alternativos de sociabilidade. A Economia Solidária tem sido, no Brasil, quem tem melhor incorporado esse desejo de mudanças. Ela advoga uma ampla democratização da economia, ou seja, do financiamento, produção e comercialização de produtos e serviços. Apesar dos vários entendimentos existentes e do caráter relativamente recente da ES, eles têm em comum a contraposição da solidariedade ao individualismo e à competitividade como princípios máximos do paradigma econômico atual.
A Economia Solidária já conta com uma considerável rede de apoio institucional no Brasil, se comparada com o seu incipiente lançamento pelas universidades públicas e movimentos sociais desde o final da década de 1980. Prova disso é que em 2003 foi criada a Secretaria Nacional de Economia Solidária e o Conselho Nacional de Economia Solidária. Em Londrina, desde 2005 opera o Centro de Economia Solidária da Prefeitura de Londrina, que assiste cerca de 50 grupos de produção.
A Universidade Estadual de Londrina (UEL), após uma experiência frustrada em 2000, instalou em 2003, com incentivos do governo federal, a Incubadora Tecnológica de Empreendimentos Solidários (Intes). Mais recentemente, o governo do Estado do Paraná, representado pela Secretaria de Ensino Tecnologia (Seti) e pela da Fundação Araucária, aprovou vários projetos de extensão tecnológica universitária cujas finalidades estão voltadas para o fortalecimento da ES na região de Londrina.
Vistas do prisma institucional e apesar das inúmeras lacunas, é possível afirmar que nunca as condições foram tão favoráveis ao desenvolvimento da ES. Entretanto, o acompanhamento de empreendimentos da ES demonstra que a viabilidade dos mesmos enfrenta desafios de distintas ordens como problemas de gestão, marketing e de capacitação, o acesso restrito ao crédito, a informalidade, o desconhecimento da economia solidária por parte do público em geral e, até certo ponto, o preconceito aos seus produtos.
Apesar do poder público municipal, estadual e nacional terem despertado a atenção para os empreendimentos de ES, o apoio proporcionado ainda é pequeno. Tecnicamente, a empresa solidária pode ser tão eficiente quanto uma empresa tradicional, porém do ponto de vista social possui inúmeras vantagens. A consolidação de uma economia solidária traz consigo importantes consequências sociais como o fortalecimento da economia local, a redução da pobreza e da violência, o maior comprometimento com a sustentabilidade urbana e rural, relações mais transparentes e éticas entre produtores e consumidores, logo, o fortalecimento do capital social das comunidades e a melhoria dos níveis de desigualdade e de injustiça.
As universidades têm um papel fundamental na disseminação e consolidação da ES. Elas não devem se restringir a criar projetos ''vitrines'' para captar recursos externos e legitimidade, mas promover amplo debate sobre o atual modelo econômico, seus custos e implicações para as pessoas. Devem, principalmente, investigar as grandes questões em torno de modelos econômicos alternativos, como a ES, sua viabilidade, grandes obstáculos institucionais e técnicos e as respectivas alternativas.
A um olhar pragmático e imediatista não é difícil constatar que ao defender a ES nos propomos a fazer a gestão da utopia. Mas não há tempo perdido nem muitas opções no horizonte, vivemos um momento precioso para ensaiar, conhecer, aprender e desenvolver práticas e atitudes indispensáveis à economia de uma sociedade mais justa, sustentável e mais, que não abandonou o desejo e a necessidade da felicidade para todos. Temos certeza que estamos distantes de uma economia que privilegie a vida, mas também, como indica a Campanha da Fraternidade de 2010, que por isso mesmo alcançá-la é mais urgente.
BENILSON BORINELLI e SINIVAL OSÓRIO PITAGUARI são professores na Universidade Estadual de Londrina


