Seremos capazes de construir uma sociedade que tenha por fim o bem comum e a felicidade de seus integrantes?




A moral é um atributo específico de cada sociedade a cada momento de sua história. Observamos que a sociedade brasileira vive um momento delicado na concepção e na maturação de um código moral que consiga abranger livre e conscientemente todos os segmentos sociais ou a maioria dos cidadãos.

A moral brasileira foi erigida ao longo de quatro séculos e meio de dominação dos brancos sobre os negros, dos homens sobre as mulheres, dos proprietários sobre os não proprietários, dos ricos sobre os pobres. A partir da segunda metade do século XX passou a ser duramente questionada e suplantada. Sistematicamente, num processo gradativo, cada segmento social, cada periferia, foi desenvolvendo sua própria moral e seu próprio código de relacionamento social e de convivência entre indivíduos.

A forma hierarquizada como se organizou nossa sociedade, o histórico de injustiças, a concentração de riquezas e de privilégios, a exclusão social da grande maioria da população, as bruscas transformações nas normas de convivência social, a intensa mobilidade demográfica que ocorreu entre os anos 1950 e 2000, o questionamento e a quebra do pensamento que hegemonizava a essa sociedade, o surgimento de novos atores políticos e sociais, são elementos que nos informam que houve mudanças profundas nas formas de organização e que estas mudanças impactam e impõem um novo ordenamento social e um novo Código Moral.

Temos de um lado uma classe social que se sente superior e proprietária natural de todo o patrimônio nacional, assim como se vê no direito de usufruir desse patrimônio conforme seus próprios interesses e privilégios. De outro, temos diversos segmentos que se sentem ignorados pelo Estado e se organizam com ideologias próprias para transformar o País e garantir seus direitos de cidadãos.

Nas periferias desenvolveu-se uma moral baseada em princípios de solidariedade, amizade, compaixão, dadas as necessidades e dificuldades comuns. Por outro lado, esta mesma moral periférica também desenvolveu, e continua desenvolvendo, entendimentos próprios do que é certo ou errado, justo ou injusto. Roubar, mesmo que para matar a fome, nas leis formais é um crime que já levou muitos brasileiros a passarem anos na cadeia. No código moral das periferias o ato de roubar é visto com outros olhos, chega a ser considerado um ato normal, um direito legítimo de quem não tem o que comer e se depara com a ostentação e o desperdício.

Destarte, podemos perceber que existe uma moral que seria ''oficial'', que se propõe universal, mas que, de fato, é muito pouco respeitada e seguida. Por outro lado, existem muitas outras lógicas informais que são aquelas que realmente determinam como se dão os relacionamentos na sociedade brasileira. No Brasil, no último meio século, mudou o relacionamento entre as pessoas e entre os diversos segmentos sociais. Novos valores estão se constituindo e uma nova moral se estabelece, determinando que se repense a sociedade. Novos atores sociais estão impondo uma nova sociedade muito mais tolerante e muito mais inclusiva. Atualmente, quando os brasileiros exigem ''mais ética'', na realidade, estão querendo se referir a uma nova moral. Um novo código que consiga abranger as novas relações sociais que foram se estabelecendo, perifericamente, negando um código moral que já se comprovou ultrapassado.

A conclusão a que chegamos é que, sob um olhar ético, precisamos aprofundar muito mais o estudo sobre a dinâmica das grandes transformações por que passam as relações pessoais, sociais e políticas entre os brasileiros. Olhar a causalidade deste movimento, tentar compreender o tipo de sociedade que estamos construindo. Na compreensão ética de Aristóteles, nos perguntamos: seremos civilizados o suficiente para construir um país capaz de comportar toda a sua diversidade? Seremos capazes de construir uma sociedade que tenha por fim o bem comum e a felicidade de seus integrantes?

FRANCISCO RAFAEL R. TOMAZINI é teólogo em Londrina

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