Quaresma é caminho, é peregrinação para dentro de nós mesmos através do silêncio, da meditação, da oração










1. Quaresma são os 40 dias que Jesus viveu no deserto, na oração, no jejum preparando-se para sua missão. Quarenta anos o povo de Deus peregrinou pelo deserto até a Terra Prometida. Quaresma é caminho, é peregrinação para dentro de nós mesmos através do silêncio, da meditação, da oração. É uma caminhada interior, para o lado ou seja para os outros e para o alto, Deus.

2. Quaresma é tempo especial de revisão de vida, conversão do coração, retorno a Deus. Somos barro e cinza nas mãos do oleiro. Ele quer refazer os vasos quebrados, reconstruir o que foi destruído. Não podemos permanecer nos laços do mal. A quaresma é a libertação do mal, a conquista da liberdade. É hora de recomeço e de reecantamento.

3. Quaresma é oportunidade de crescimento humano, espiritual e social. As lágrimas do arrependimento lavam nossos corações. Percebemos a larguesa da misericórdia de Deus e a presença do mal em nós. É hora de decisão: romper com o mal e amar o bem. É hora de decisão e ruptura, de crescimento em vista da paz interior e da verdadeira alegria.

4. Quaresma é convite ao jejum do estômago, do sono, do pecado, do julgamento dos outros, mas principalmente jejum dos olhos e da língua. Assim vamos cristificando todas as áreas de nossa personalidade e o corpo se torna território de Deus. A transformação do mundo começa em nós.

5. Na quaresma podemos exercitar a espiritualidade da reparação. O pecado mesmo perdoado deixa consequências graves em nós, nos outros, na sociedade e no cosmos. Daí a necessidade da reparação, da purificação e de sanar as consequências e influências maléficas do pecado. Reparar é refazer, reconstruir, recriar, expiar.

6. Quaresma é um retiro espiritual onde meditamos o evangelho da Paixão do Senhor e tiramos grande proveito espiritual. Podemos focalizar nosso defeito principal e buscarmos os remédios para saná-lo deste ponto fraco que se não for curado é porta para a entrada do mal e do Maligno.

7. Os pontos-chaves da meditação quaresmal são: a via sacra, a inocência de Jesus, a negação, a traição, as santas chagas, o sangue salvador, o coração transpassado. Jesus foi marcado para morrer porque passou fazendo o bem. Jesus no sofrimento testemunha sua filiação e obediência ao Pai e, ao mesmo tempo, mostra-se profundamente solidário com os outros.

8. Que personagens da paixão do Senhor nos representam? Os discípulos que dormem? Pedro que peca e chora amargamente? Judas que resiste ao amor e se suicida? Barrabás, o bandido que foi declarado inocente? Pilatos que age contra sua consciência, condena Jesus para não perder o poder? Cirineu e Verônica que se solidarizam com Jesus? O bom ladrão que se confessa e entra no paraíso? Maria e João de pé aos pés da Cruz?

9. Quaresma é a escola da ciência da cruz. Sim, a cruz é nossa força, nossa glória, nossa esperança, origem de todas as bênçãos e fonte de todas as graças. A paixão do Senhor nos apaixona por Deus e nos leva à compaixão pelos outros. Somos convidados a crucificar a mundanidade, o homem velho, a carne e a carregar a cruz, o fardo dos outros. Não ser cruz para os outros nem crucificá-los.

10. Os sofrimentos morais de Jesus foram maiores que os físicos, a saber: traição, negação, mentiras, insultos, injúrias, humilhações, abandono, angústia, rejeição, gozação, manipulação dos poderes, fracasso, falsidade, jogo de interesses, mesquinhez, ultrajes, desprezo, etc. A quaresma é um tempo privilegiado para grandes descobertas. Enquanto há sofrimento no mundo a paixão de Jesus se prolonga. O crucifixo é sinal e recordação do amor misericordioso e salvador de Deus pela humanidade. Por isso mesmo não deve ser retirado das repartições públicas porque faz parte de nossa história, de nossa cultura.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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