Reafirmamos o potencial dos Mercados de Londrina como geradores e irradiadores de atratividade


Um Mercado Municipal permite conhecer a essência do lugar, decifrar o labirinto da cidade. Ali podemos ouvir o sotaque da terra, reconhecer personagens lendários, garimpar nas prateleiras, inebriar-se com as cores e aromas dos produtos regionais e de época. Quem sabe, arriscar um ou outro prato da culinária local e étnica.
Mas, não sei se é pela sonoridade, um mercado tradicional tem que ser municipal. Não pode ser gourmet plaza, nem super ou hipermercado e sim municipal, com bancas de vários tempos a atiçar nosso imaginário.
Londrina nunca teve um Mercado Municipal Central. Em 1957 houve uma proposta, não concretizada, de construção de um mercado de 10.000 m2 ocupando a Praça Rocha Pombo, considerado local central e de fácil acesso. Na década seguinte, a Prefeitura resolveu adquirir um pavilhão construído em áponto estratégico, no aristocrático bairro-jardim Shangri-lá, onde as ruas curvas asfaltadas e sem cruzamentos, praças em meia lua e arborização estética definiam uma nova paisagem. O pavilhão era uma obra em linguagem modernista da Construtora Veronezi. Fotos do acervo do Museu Histórico de Londrina mostram uma construção em ''V'', com um pátio a céu aberto, onde ficavam enfileiradas as bancadas de produtos agrícolas.
Até há alguns anos, o Mercado do Shangri-lá ainda mantinha uma atmosfera de certa singeleza. Era possível seguir as passadas de terra vermelha no chão e até galinhas e coelhos vivos eram comercializados no local. Ficavam engaiolados num estreito corredor de ligação entre as duas alas. Esta era uma passagem cheia de aventuras para a criançada. Sim, o Shangri-lá tinha cheiros e odores. Tinha luz e sombra, como convém a todos os lugares dignos moldados lentamente. Muitos esboçaram aqui a história de vida.
Depois de cinquenta anos e vários liftings o Mercado Municipal do Shangri-lá vive um momento de intensa vitalidade. É um dos importantes locais da cidade, um patrimônio cultural e afetivo da região.
Agora ouvem-se os rumores de venda dos Mercados Municipais pela Companhia de Habitação (Cohab), sua administradora. A justificativa é a pouca renda dos aluguéis e a utilização do recurso para a construção de casas populares. Aliás, o Mercado da Vila Casoni já teria sido alienado, vendido como sendo um barracão subutilizado, segundo o noticiário.
Reafirmamos o potencial dos Mercados Municipais de Londrina como geradores e irradiadores de atratividade. Os Mercados como o do Shangri-lá e Casoni deveriam funcionar também como locais de atividades culturais múltiplas e informações turísticas, de espaços de reconhecimento e memória para os idosos, de generosidade urbana com seus toaletes limpos e acessíveis e base de segurança da vizinhança com módulos policiais 24
horas.
Deveriam servir como âncoras na reabilitação e preservação, tão necessárias, dos bairros em que estão localizados: o Shangri-lá, com suas vielas, e a histórica vila de madeira Casoni. E, para isto, é imprescindível que os Mercados permaneçam sob a tutela responsável do Município.
Finalmente, nenhuma cidade venderia um Mercado Municipal numa época em que eles são cada vez mais valorizados. Veja o caso emblemático do Mercadão Municipal de São Paulo, de Curitiba e das inúmeras experiências de cidades do interior. É importante reavaliar a alienação dos Mercados Municipais em Londrina.
HUMBERTO YAMAKI é docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo UEL

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