O Brasil é o nono país em volume de riqueza produzida, mas é o sétimo pior do mundo em desigualdade social


Quando Gilberto Freyre publicou Casa-grande & Senzala em 1933, a intenção inicial era apresentar um estudo sobre a formação da família brasileira no regime de economia patriarcal. Conforme Elide Rugai Bastos, professora de Sociologia da Unicamp, que é considerada a maior especialista da obra de Freyre, o livro se insere num quadro em que o debate sobre a formação nacional compõe um cenário político no qual a centralização administrativa altera o lugar não apenas das regiões como dos grupos que exercem o poder local e regional. Bastos entende que a essência da obra-prima de Freyre stá nas definições dos termos Casa-grande e Senzala: a primeira é símbolo de um status - o de dominação; o segundo de subordinação ou submissão.
Mais de sete décadas se passaram desde a publicação de Casa-grande & Senzala, mas ainda é possível notar que este processo de dominação e subordinação continua. Desde a chegada das caravelas, o tratamento dado à parcela dominante da população - a casa-grande - sempre foi diferenciado, para melhor, do que àquela dada aos subordinados - a senzala. Essa discriminação se transformou em um fato tão comum, que todos, mesmo os que são discriminados, passaram a aceitar com tamanha resignação, que chega até a passar despercebida, na maioria das vezes. O pessoal da ''casa-grande'' recebe os benefícios mais diversos, em especial do Estado; quando isso acontece com a ''senzala'', a ''chiadeira'' é geral.
Como exemplo, temos o benefício do Bolsa Família, no qual uma boa parcela da população pobre - cerca de 11 milhões de famílias - recebe uma ajuda mensal para as despesas mais urgentes. Muito se critica essa modalidade de subsídio, mas poucos sabem como ela funciona, para quem é destinada, qual o valor que as famílias efetivamente recebem. O Bolsa Família paga valores de no mínimo R$ 22 e no máximo R$ 200. Para receber o valor máximo, a família deve se enquadrar no padrão de extrema pobreza, pois teria de provar uma renda mensal menor ou igual a R$ 70 por membro e de ter três crianças com até 15 anos e dois adolescentes entre 16 e 17 anos.
Para grande parte da população que não recebe esse benefício e para alguns analistas reacionários, o Bolsa Família é apontado como um programa criado para sustentar a popularidade do governo Lula, sobretudo no Nordeste. Apesar de criticado no Brasil, ele é considerado um dos principais programas de combate à pobreza no mundo e usado como referência em vários países.
Outras modalidades de ajuda do Estado brasileiro, no entanto, não são tão severamente julgados pela população e pelos críticos. Os programas de ajuda aos bancos, aos usineiros, às grandes construtoras, aos agropecuaristas, quase nunca são discutidos pela população. Poucos sabem que quando um produtor rural adquire um veículo novo, tem desconto de até 10%. Também nos meios acadêmicos, onde boa parte da intelectualidade critica o Bolsa Família, não se questiona os programas de Bolsa de Estudo, onde uma parcela privilegiada recebe valores mensais bem acima daqueles pagos aos pobres. Alunos de pós-graduação de universidades públicas, que já estudam por conta do Estado, recebem ajuda financeira para cursarem mestrados, doutorados e pós-doutorados com valores que variam de R$ 1.200 a R$ 3.300 mensais por períodos de um a cinco anos. A imprensa, que é o quarto poder, quase sempre está do lado da ''casa-grande'', quando, por exemplo, criminaliza o MST, tratando seus militantes como bandidos, mas não focaliza com a mesma rigidez os latifundiários e o trabalho escravo promovido por eles.
O Brasil é o nono país em volume de riqueza produzida, mas é o sétimo pior do mundo em desigualdade social. É urgente e necessário que nos conscientizemos e promovamos mudanças de comportamento, para que a cultura do ódio e da violência não impere. Isso possibilitará que o pessoal da senzala não morra de fome e que o pessoal da ''casa-grande'' não morra de medo...
ALTAIR APARECIDO GALVÃO é cientista social, mestre e doutorando em Geografia Humana pela UEM e professor universitário em Maringá

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