Se temos dinheiro suficiente para gastar em segurança, acredito que devamos ter também para ações sociais


Vivemos um momento de bastante apreensão e comoção. Pessoas preocupadas e sensibilizadas pelas enchentes, alagamentos, terremotos, furacões. Este é o momento que observamos muitos cidadãos preocupados, com sentimento de dor em relação ao próximo. Igualmente doloroso vermos exatamente aqui ao nosso lado, em nossa cidade junto às nossas casas, profunda miséria, um exército de crianças sem lazer, sem esporte, com educação deficiente, sendo envolvidos e assediados por traficantes, jovens adolescentes se matando, casas que são um verdadeiro depósito de lixo. Crianças violentadas, sofrendo ameaças, e ao mesmo tempo, vemos a sociedade gastando milhões com segurança, câmeras, guarda-costas, etc.
Estas mesmas pessoas que nos trazem sentimento de tristeza, em outros momentos justificam este anseio por mais segurança, e no fim concluímos que a solução dos nossos problemas está no calibre da arma que o segurança vai ter, ou na blindagem do carro, ou no número de câmeras.
Neste momento, se tentarmos sair da situação e enxergamos de longe o cenário que estamos vivendo, talvez o que veremos nos deixará desolados. O que nos faz gastar milhões com câmeras e outros equipamentos ''indispensáveis'', sendo que com R$ 20 mil a R$ 30 mil por mês consegue-se transformar um bairro violento em um bairro de paz através de um trabalho social? Na verdade, estamos levando muita sorte até o momento, pois se essa situação social persistir, é possível que cheguemos a uma situação insustentável.
O que é ter segurança? O que é viver em harmonia em um mundo de tantas diferenças? Não podemos nos esquecer que estamos nos protegendo de seres humanos que se tivessem uma formação, oportunidades, se vivessem com dignidade, profissionalização, comprometimento social, com certeza iriam optar por trabalhar ao invés de molestar o próximo e se envolver ações ilícitas. Para termos certeza disso, temos que pagar para ver. E isso significa quebrar paradigmas, e acreditar que ações preventivas sociais têm resultados contundentes e transformadores.
Observo nas ruas, as pessoas andando com medo. Estamos criando filhos que não sabem andar na rua, atravessar uma avenida, ir à biblioteca, têm medo de ir à lanchonete na esquina, não andam de bicicleta, têm medo de gente, e o que fazemos? Nos fechamos mais e mais e mais, e a distância entre nós seres humanos aumenta na mesma proporção.
Portanto, me ponho a refletir se nós, londrinenses, temos dinheiro suficiente para gastar em segurança, acredito que devamos ter também para ações sociais, e podemos permitir que o nosso instinto de humanidade, amor ao próximo, à nossa cidade possa prevalecer e então uma grande mudança de comportamento e conduta viveremos em nossa cidade de Londrina. Que possamos ser exemplo de solidariedade sem a necessidade de esperarmos um cataclismo, uma dor profunda. Temos provas concretas do que um trabalho social pode realizar em um bairro de vulnerabilidade.
Se nos organizarmos, ''gastar'' o nosso tempo da mesma forma como fazemos para cuidar da nossa segurança, faremos muitas mudanças.
Para quem acha que tudo isso não é papel da sociedade e sim do governo, eu acrescento que o artigo 227 da Constituição Federal estabelece: ''É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de coloca-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão''.
Portanto, peço a todos que reflitam sobre como estamos conduzindo o futuro de nossa cidade e convido a experimentarmos todos investir efetivamente numa sociedade onde todos tenham oportunidades.
ALDO PEDALINO é dentista em Londrina

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