ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de janeiro de 2010
Ricardo José Rodrigues 
Assim como as condições ambientais,as mudanças dos organismos ocorrem no dia a dia,o tempo todo
Temos assistido a vários eventos catastróficos da natureza que nos tiram pessoas queridas e causam tamanha dor e perdas irreparáveis. Como exemplo vimos os episódios recentes de deslizamentos de terra em Angra dos Reis e o terremoto no Haiti.
Quando interrogamos os geólogos e meteorologistas há sempre uma explicação de que a natureza produz tais acomodações consideradas normais e cíclicas, então, a dificuldade está na previsão exata de quando estas ocorrerão.
No caso de Angra dos Reis, as chuvas intensas foram o maior fator de risco para os deslizamentos pois as condições propícias do terreno já existiam. Assim também funciona o corpo humano. Há períodos de acomodação que podem resultar em catástrofes das quais a mais temida é a morte súbita.
Estudos demonstram que a deposição de gordura e inflamação das artérias já se iniciam na primeira infância e que 40% da populacão de adultos jovens apresentam estas placas ainda assintomáticas pois estão ''acomodadas'' (se você leitor tem entre 30 a 45 anos então pertence a este grupo). São placas moles, em crescimento, que podem sofrer eroão e aí sim, com a formação de um trombo novo, obstruir totalmente a artéria do coração (coronária) levando a angina, infarto ou morte súbita.
As condições que favorecem esta ocorrência são os fatores de risco, como a chuva em excesso foi para Angra, e os mais conhecidos são: hipertensão, colesterol alto, tabagismo, histórico familiar, diabetes mellitus, insuficiência renal, estresse físico e/ou emocional intensos, dentre outros mais novos e ainda em fase de estudo.
Tal qual os geólogos e meteorologistas, auxiliados por aparelhos e teorias de probalidade, os médicos usam métodos estatísticos para prever a chance de ocorrência do infarto, angina e morte súbita.
A ferramenta mais conhecida para este propósito é o escore de Risco de Framinghan, simples, rápido e de baixo custo. Como acontece com todas as metodologias que se dispõem a prever eventos futuros, o escore de risco também tem limitações. Nesse caso quando afirmamos qual a chance de um indivíduo apresentar morte ou infarto estamos acertando em torno de 79%, isto mesmo: não conseguimos prever 21% destes eventos. Quando adicionamos métodos mais sofisticados e novas tecnologias, conseguimos elevar este número para aproximadamente 83%.
Portanto, para os pessimistas que olham a metade vazia do copo, fica a impressão de que nada adianta fazer exames preventivos. Para os otimistas, que olham a metade cheia do copo, fica a sensação de que quando os exames (inclui-se o exame clínico) estão normais, tudo pode, pois estes estarão sempre protegidos nos 83%. A interpretacão correta é que a avaliacão clínica traz um diagnóstico no momento de vida do indivíduo prevendo com razoável chance de acerto infarto e morte súbita.
Assim como as condições ambientais, as mudanças do organismos ocorrem no dia a dia, o tempo todo. Estresses intensos como o físico (lembro que o primeiro maratonista teve morte súbita apos cumprir a sua tarefa) ou emocional (quem nunca ouviu falar em morrer de susto?) podem levar a erosão de placas das coronárias e depois a infarto seguido de morte. Lembremos que o mecanismo de morte súbita mais frequente, aproximadamente 2/3, é decorrente de doenças das coronárias, mas há também os derrames, doenças do músculo do coração e aquelas conhecidas como arritmias primárias.
Portanto, mesmo em situações em que temos razoável chance de que haja boas condições físicas, ainda assim fica por conta das probalididades os eventos futuros( que podem ocorrer em curto espaço de tempo), não dispensando nunca a participação dos bons hábitos de vida como exercício físico orientado e visando a promoção de saúde, alimentação correta, combate ao estresse e tabagismo, que são os grandes aliados no combate ao infarto e a morte súbita, inclusive superando em algumas circunstâncias as medidas medicamentosas.
RICARDO JOSÉ RODRIGUES é professor de cardiologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL)


