ESPAÇO ABERTO
Limites à terceirização nos órgãos públicos
Roberta Soares da Silva
O Projeto de Lei do Senado nº 223/09, aprovado em 2 de dezembro de 2009 pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), altera a lei nº 8.666/93, proibindo a contratação de serviços que estejam incluídos entre as atribuições regulares de servidores ou que representem necessidade finalística, essencial ou permanente dos órgãos da administração pública.
Atualmente, a terceirização é admitida em atividades-meio, as quais proporcionam condições a uma empresa de atingir seus objetivos, como as atividades relacionadas à limpeza, à operação de elevadores, à conservação, à vigilância e manutenção de prédios e às relativas aos serviços de tecnologia da informação, entre outras. Diferem, portanto, da atividade principal da empresa, denominada atividade-fim, onde são exercidas as atribuições regulares dos cargos de provimento efetivo. Assim, a lei deixa claro que a terceirização de atividades-fim é uma forma ilegal de contratação praticada na tentativa de se burlar as leis trabalhistas.
É certo que o principal motivo da aprovação do PL 223 é justamente o temor dos órgãos públicos de serem condenados solidariamente junto com empresas privadas contratadas por obrigações trabalhistas não-cumpridas por estas (item IV, Súmula 331, do Tribunal Superior do Trabalho). Afinal, a terceirização das atividades essenciais dos órgãos públicos descaracterizaria a exigência do artigo 37, II da Constituição Federal, onde a investidura em cargo público depende de aprovação prévia em concurso público (excetuando os casos de cargo em comissão).
Vale lembrar que os órgãos públicos utilizam essa modalidade de contratação através das licitações. E que a finalidade desse projeto de lei é apenas reconhecer legalmente que a terceirização das atividades-fim dos órgãos da administração pública caracteriza-se como fraude, permitindo assim o ajuste ao entendimento atual da Justiça do Trabalho.
ROBERTA SOARES DA SILVA é advogada trabalhista em São Paulo
A notável Zilda Arns
Walmor Macarini
Quando um ser humano como Zilda Arns se vai, todos nós morremos um pouco e sentimos profundamente quanta falta fazem, no seio da humanidade, pessoas como ela. Zilda morreu em pleno exercício de sua missão humanitária - e nessa atividade meritória ela viveu toda sua vida. Descendente de alemães, essa catarinense fantástica fundou a Pastoral da Criança (hoje com 260 mil voluntários), uma organização que presta atendimento a menores e gestantes carentes. Braços da Pastoral se estendem a 27 países, e recentemente Zilda criou também a Pastoral da Pessoa Idosa.
Em artigo que escrevi sobre ela no ano 2000 mencionei-a como a gigante de Forquilhinha, porque foi nessa pequena localidade do sul de Santa Catarina onde ela nasceu, e falo com especial comoção porque nasci poucos quilômetros dali e conheci seus familiares, incluindo o cardeal Evaristo Arns, irmão dela. Várias vezes o nome dessa sanitarista e pediatra - que um dia deslocou-se de seu Estado natal para vir prestar serviço no Paraná - despontou como concorrente ao Prêmio Nobel da Paz. Disto ela não necessitava, porque o maior galardão foi ela quem concedeu ao mundo, pela sua obra, cuja descrição de tão vasta não caberia neste espaço. A primeira experiência da Pastoral aconteceria aqui em Florestópolis, quando o município apresentava elevado índice de mortalidade infantil.
Ao triste episódio de sua morte, como vítima do terremoto que abalou o Haiti (onde ela se encontrava a serviço de sua missão), soma-se o gigantesco número de vítimas fatais, estimado em 100 mil, mais 3 milhões de feridos ou desabrigados. Uma dantesca amostragem de fim de mundo. Militares brasileiros em missão naquele país estão entre as vítimas.
Zilda Arns é um exemplo para o mundo e para os governantes. Ela não tinha nenhum compromisso de fazer o que fez, eis que não subiu em palanques para eleger-se regente da Pastoral da Criança, nem precisou de mandato político para realizar sua obra. Pelo seu trabalho voluntário, faltam palavras para exaltar a passagem pela face da Terra dessa notável mulher!
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





