É necessário que o mundo volte todos os esforços para os trabalhos de resgate
e reconstrução do Haiti





Já se passaram dois anos, mas até hoje me recordo das primeiras palavras que ouvi quando pisei em solo haitiano: ''Mange, mange, bon bagai'' (comida, comida, sangue bom). Um pequeno e faminto morador de Porto Príncipe implorava por alimento. O país mais pobre das Américas é um retrato perfeito do caos, não há saneamento básico, o fornecimento de energia elétrica é restrito, a maioria da população não tem luz nem água encanada em suas casas, 80% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza o mesmo percentual estimado de desempregados.
Os índices de infectados pela Aids e os de mortalidade infantil estão entre os mais altos do mundo. A instabilidade política, com sua história forjada por golpes de estado e alguns presidentes mortos, dão a tônica do quadro trágico vivido pela população da antiga ''Pérola das Antilhas''.
Não bastassem esses dados estarrecedores, a natureza tem voltado sua fúria contra o terço ocidental da ilha Hispaniola (ilha divida entre Haiti e República Dominicana). Em 2008 tempestades e furacões deixaram mais de mil mortos e 800 mil pessoas desabrigadas, a destruição fez o pequeno e combalido PIB haitiano recuar 3%. Mal começaram a reconstrução do país e um sismo com magnitude de 7,0 na escala de Richter destrói a capital Porto Príncipe, cidade que concentra um terço da população haitiana.
É necessário que o mundo volte todos os esforços para os trabalhos de resgate e reconstrução do Haiti. É improvável que os pouco mais de 7 mil militares (dentre os quais 1.255 são brasileiros) das Forças de Paz da ONU consigam prestar assistência aos mais de três milhões de afetados. Vale lembrar que esses homens terão muito trabalho para conter as ondas de saques que se seguiram à tragédia, bem como os princípios de rebelião de uma população faminta e emocionalmente destroçadas pelas perdas materiais e humanas.
Tente imaginar Porto Príncipe como um Rio de Janeiro às avessas, na qual a população pobre vive a beira-mar e a pequena e opulenta elite ocupa os morros. Petionville, área mais rica da capital e, a priori, a mais afetada, está localizada no alto das encostas, possui as edificações de alvenaria com maior número de andares.
Nas áreas mais pobres concentram-se a maior parte das pessoas em construções com estrutura de madeira e paredes feitas com folhas de zinco. A região central da capital, que abriga as construções mais antigas de alvenaria, também foi gravemente afetada. As duas edificações mais suntuosas de Porto Príncipe ruíram: o Palácio Nacional e a Catedral de Porto Príncipe. Não restam mais nem os principais símbolos de uma popução de maioria católica e muito atenta às movimentações políticas.
O Brasil, que comanda desde 2004 Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), tem dois enormes desafios. Pela primeira vez o governo federal lida com número expressivo de baixas - até o fechamento desta edição eram 11 vítimas militares e uma civil. Até a tragédia provocada pelo terremoto, quatro militares tinham morrido desde 2004, nenhuma dessas baixas ocorreu em combate.
O propalado sucesso do Brasil na missão de paz tinha como uma de suas âncoras o baixo número de brasileiros vitimados, quando comparada com outras missões espalhadas pelo mundo. Será um importante teste para avaliar a reação da opinião pública em situações de crise.
O segundo e maior desafio será manter uma razoável estabilidade social, evitar a aumento da violência e proliferação de gangues, num cenário de absoluta destruição material. Aliado a isso a declarada pretensão brasileira de assumir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e afirmar a sua importância na geopolítica mundial, transformam o Haiti numa prova de fogo e resistência para o governo, diplomacia e Forças Armadas.
SERGIO RANALLI é editor de fotografia da FOLHA

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