Parece que o
sonho da classe trabalhadora
não se realizou e as
perspectivas de dias
melhores estão muito
além do ano novo





A recente crise econômica global causada, entre outras coisas, pela falta de regulamentação dos mercados financeiros trouxe forte descrédito ao neoliberalismo. Seus limites já são cada vez mais evidentes e suas premissas foram contrariadas, ela própria, pela realidade. O neoliberalismo é a doutrina que tem o mercado como regulador e fundamento natural da atividade econômica e procura reduzir ao mínimo a intervenção do Estado na vida econômica. Ele identifica o agir humano com a economia, o que fez dele hegemônico, como paradigma produtivo e, o mesmo tempo, expulsou outras visões sobre a economia da sociedade.
A economia passou a ser entendida como uma ''ciência dura'' ou ''exata'' e ganhou expressão nas academias e nos círculos políticos. A escola de Chicago passou a ser a expressão de ''sabedoria econômica'', particularmente dos tecnocratas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, traduziram-na em política e aplicaram como receituário para todas as economias do mundo. Surpreendentemente, ela tornou-se hegemônica a partir do final dos anos 70, até então, a ortodoxia era a economia keynesiana que considerava necessária para a estabilidade e o crescimento econômico dos países, regular uma boa dose de intervenção do estado na economia.
No Terceiro Mundo, o modelo de desenvolvimento dominante foi o desenvolvimentista que prescrevia a economia keynesiana, às economias que estavam suficientemente penetradas e transformadas pelo capitalismo. O desenvolvimentismo via no estado e não no mercado o mecanismo central do desenvolvimento. Da economia keynesiana emergiu um pacto social com escala mundial. Uma interação ativa de capitalista e trabalhadores. Os trabalhadores em troca da garantia de empregos, melhores salários e condições mais adequadas de vida, acabaram por ''aceitar'' os lucros do capital. Os capitalistas não se preocupavam com altos salários, desde que, as centrais sindicais não limitassem a acumulação e os lucros dos capitalistas. Esse compromisso conviveu com o desemprego estrutural e com a precarização do trabalho.
Embora, o neoliberalismo tenha dado sinal de seu esgotamento ainda permanecem alguns motivos de seu domínio: Países do chamado terceiro mundo - cuja burguesia é conservadora e reacionária - permanecem com a ideia de que o estado é a fonte da corrupção e reforçar o seu papel como regulador é visto por este setor da sociedade com um certo ceticismo. A economia de mercado é para esse setor o limitador natural das oportunidades de corrupção por parte dos agentes econômicos e estatais.
O compromisso social keynesiano desapareceu. Mas, o reformismo permanece no discurso das classes dirigentes. O reformismo é a ''política dos bons tempos'' isto é, quando os setores mais organizados das classes trabalhadoras a que estavam ligados ao coração do capitalismo - setor produtivo - fazia frente para assegurar as políticas públicas. Hoje este setor está tão fragilizado como qualquer outro. E, então, quem poderá incorporar os operários para fazer frente ao capitalismo? A resposta não está no reformismo destas doutrinas que na sua essência fora profundamente dispolitizadoras e despolitizantes da classe trabalhadora.
Mesmo assim, se por um lado e em alguns países, a existência das famosas políticas sociais compensatórias visa, fundamentalmente, buscar a ''fidelidade da massa'' ligitimando a ordem capitalista e por outro, o compromisso keynesiano ao consolidar o estado de bem estar fortaleceu as lutas corporativas, em detrimento da socialização da política, que acabou dificultando a incorporação das classes subalternas e, com isto, parece que o sonho da classe trabalhadora não se realizou e as perspectivas de dias melhores estão muito além do ano novo.

JOSÉ MÁRIO ANGELI é professor no departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina

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