ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Sonia Maria Petrocini 
Este personagem criado
pela cultura e explorado
pelo sistema capitalista
é parte da construção da
criança para ser um
adulto responsável e feliz
É tempo de Natal e as crianças estão às voltas com os pedidos ao Papai Noel, por carta, telefonema ou pessoalmente. Cada criança pede aquele brinquedo tão sonhado. Às vezes, é com medo que chegam para falar com o Papai Noel. Todos nós temos vontade de dar presentes surpresa! A isso podemos chamar de Papai Noel, afinal, isto pertence ao campo do imaginário.
Existe também o campo da realidade. É preciso preservar os dois e não pensar que dizemos mentiras a uma criança quando lhe falamos de um mito. O mito não é uma mentira. É uma verdade social que se faz acompanhar por ritos sociais, e que tem sua eficácia na entrada do mundo da cultura, portanto, social.
O importante é evitar que estes ritos se tornem apenas rituais. Penso nos pais que fazem cenas o tempo todo e depois um belo dia festejam o Natal. Comida melhorada, mas também ameaças de que não haja presente, cenas, censuras, confisco sob brinquedo dado pelo Papai Noel. Onde está a festa?
Podemos nos divertir fantasiando a criança de Papai Noel, desde que ela assim o queira, ou seja, só a partir dos três anos e meio de idade. Ela será o Papai Noel que vai colocar o presente nos sapatos de seus pais. E se ela vir um Papai Noel numa loja, explicamos que é um senhor fantasiado de Papai Noel. A criança perguntará, então, sobre o verdadeiro Papai Noel.
O verdadeiro não se sabe. É alguém que não bebe, não come, que não teve um pai nem uma mãe, que não nasceu e não morre. É alguém imaginário. E a criança compreenderá. Assim, estar na presença do Papai Noel não significa apenas para a criança o pedido do presente. É também um momento de exposição pessoal e de confissão, quando Papai Noel lhe fará perguntas e ela dirá a verdade, e até fará promessas.
Este personagem criado pela cultura e explorado pelo sistema capitalista atual exerce uma função que entendemos como parte da construção da criança para a ser um adulto responsável e feliz, para que saiba lidar com suas verdades, promessas e também com a lei.
Os adultos são os mediadores da criança com o Papai Noel. A partir da visão deles sobre o Papai Noel e do que transmitem à criança, ela estabelecerá uma relação importante com ele. De alguma forma, parece que Papai Noel contribui na construção pessoal da criança, quando isso não ocorre no interior da família ou quando os pais não conseguiram efetivar uma lei como fazer que a criança deixe a chupeta ou durma com a luz apagada. Estamos neste ponto considerando as crianças suscetíveis a fantasiar, historiar, onde as crenças são valorizadas. Crianças pequenas para as quais a separação entre realidade e fantasia é pouca e tênue.
Incluído numa ordem social e cultural, deslocada do núcleo familiar, o Papai Noel poderá ajudar a criança a separar-se dos pais, assumindo compromissos com ele, que está numa esfera mais complexa.
Falamos de Papai Noel como poderíamos estar falando de qualquer personagem cultural como o coelhinho da Páscoa, o bicho papão, o guarda e o médico. São instrumentos que podem ser usados pelos adultos a fim de que a criança procure entender, dar sentido e significado para coisas de sua vida diária, passando a se posicionar na sociedade, seja a escola, grupo da igreja ou o time de futebol.
Este tema Papai Noel é frequentemente encontrado na magia das crianças. Embora a criança já saiba da verdade pelos amigos, e continuem a lhe dizer que o Papai Noel é verdadeiro ''de verdade'', enquanto ele é verdadeiro ''de brincadeira''. É um outro campo, além da verdade. É o território, se assim podemos dizer, da poesia..
SONIA MARIA PETROCINI é psicanalista em Londrina


