ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Adreana Dulcina Platt 
As instituições
de ensino devem
preparar os sujeitos
para compreenderem-se
enquanto seres
históricos
As práticas para a formação humana estão descaracterizando-se daquele princípio inegociável de desenvolvimento pleno. Encontramos instituições de ensino, nas várias etapas e modalidades, concebendo o espaço da escola como meramente um ''preparatório'' para o ''mercado''.
Esse é um grotesco desvio de finalidade, haja vista que a formação escolar tem como propósito a socialização e apreensão do saber historicamente acumulado, além do que, nossas bases nacionais de educação se pautam, acertadamente e com propósito, no volume qualitativo em detrimento do acúmulo quantitativo, pelo elementar caráter da provisoriedade dos conhecimentos. E isto deve ocorrer desembaraçado de uma ''colocação no mercado'', ainda que a promoção do saber que se dá pelo processo de transmissão e assimilação tem por agenda o reconhecimento aos elementos e avanços tecno-científicos que compõem e se complexificam na dinâmica social.
Para ''digerir'' esse fenômeno devemos desmistificar, primeiramente, o que é ''mercado''. Esta ''mão invisível'' reconhecida por Adam Smith, tinha o sentido de ser uma entidade que justificaria o que materialmente o modelo liberal e capitalista de produção provocaria em amplos setores sociais por suas contradições e usuras.
Da mesma forma, não poderíamos omitir um segundo aspecto que ocorre com o agudo estrangulamento que se dá com o elemento ''preparatório'' para ''saber agir'' em meio a esta realidade contraditória: o próprio agente formador deve ser ''de ponta'', o que escola alguma pode prometer, pois temos a constatação de alunos que saem formados para uma realidade imediata, sendo que, no momento em que isso acontece as perguntas deste tempo mudam... Sem falar no que as estatísticas apontam há muito tempo: de que várias áreas do conhecimento estão com dificuldades em formar novos quadros nas licenciaturas por falta de interesse dos candidatos. O que torna o magistério uma carreira para compor uma ''renda secundária'' e não encontramos muitos sujeitos dispostos a se submeterem ao regime de ''dedicação exclusiva'' nas instituições de ensino.
Em determinadas carreiras, principalmente as liberais, esse quadro se agrava, pois, como, por exemplo, a tríade universitária ocorreria a contento com professores que pululam em diferentes instituições, consumindo seus horários objetivamente a um aspecto do que deveria ser indissociavelmente ensino-pesquisa-extensão? É uma inviabilidade da vocação universitária que deve ser revista.
Entendemos que a formação humana tem uma perspectiva ''continuada'' exatamente pela incontrolável dinâmica social que se complexifica insaciavelmente. Sabendo exatamente deste pressuposto as instituições de ensino (do básico ao superior) devem preparar os sujeitos, sim, para compreenderem-se enquanto seres históricos, assim como das razões e efeitos de nossas complexidades e escolhas sociais, levando-nos aos determinantes supra, infra e estruturais que orientam tais escolhas, no tempo e no espaço. Este elemento será o verdadeiro fiel da balança para que julguemos a competência da escola/universidade que investiremos vários anos de formação e capital.
Essas instituições que se tornaram verdadeiras ''moendas'', patrolando princípios pedagógicos fundamentais e torturando discentes/docentes para que se enquadrem a este modelo perverso de ensino ''utilitarista'' e instrumental, devem reler o projeto político pedagógico que enviaram aos órgãos fiscalizadores e voltar aos compromissos ali oficializados junto a sociedade que prestam serviços.
Outrossim, a sociedade civil é convocada a compreender o grave equívoco desta motivação numérica e quantitativa, assim como apreender que a formação humana está além de uma necessidade imediata, porquanto suas premissas se ajustam na composição do ethos, de uma individualidade, que se organiza a partir da totalidade de aspectos construídos na riqueza das relações sociais e na transformação histórica de seu meio, que ocorre a partir da apropriação aos diferentes modos de transformação desta realidade.
ADREANA DULCINA PLATT é doutora em Educação pela Unicamp e professora adjunta na Universidade Estadual de Londrina


