Belém quer dizer cidade do pão. Jesus promete que quem o segue não terá mais fome. Ele multiplica os pães, defende os pobres e elogia Zaqueu o rico solidário. Desde Belém, é o pão do céu que dá vida ao mundo e sacia as nossas quatro fomes.
1. Fome de pão. A fome é um problema ético e político. No mundo coexistem abundância e penúria, miséria e desperdício, consumismo e fome. ''Tive fome e me destes de comer'' (MT 25, 35). A ordem dada aos discípulos é esta: ''Dai-lhes vós mesmo de comer'' (Mc 6, 37). A mãe de Jesus reza que ''os famintos serão saciados'' (Lc 1,53). Nós pedimos o pão nosso na oração do Pai Nosso. Deus não cuida só da alma, mas também do estômago. O Natal tem tudo a ver com partilha, solidariedade e opção pelos pobres. Desde sempre Deus se revela cuidador dos órfãos, das viúvas, dos pobres e dos estrangeiros. Belém deve ser o nome de todas as cidades ''cidade do pão''. A cidade onde há pão se transforma em cidade da paz. ''Entro na cidade e eis os mortos pela fome'', diz o profeta Jeremias. O reino que Jesus traz é o reino da justiça e da vida para todos. Fome é questão de decisão política.
2. Fome de afeto. Esta é nossa carência essencial. A ternura, o toque, o colo, o elogio, a gratidão saciam nossa fome de afeto, de amor, de carinho. Sem esse alimento adoecemos e perecemos. A rejeição, a indiferença, a falta de amor é a experiência mais diabólica da vida. É proibido economizar afeto, atenção e elogio. Não basta amar as pessoas, elas precisam saber que são amadas.
Quem é ferido por falta de afeto não pode crescer, ter saúde e inteligência. O coração abre as portas da razão e tem razões que a mente desconhece. O afeto faz milagres, soergue, cura, liberta. Um sorriso abre mil portas. Quanto carinho, afeto e ternura recebemos no Natal do Menino Jesus. Deixemo-nos amar. O Natal nos torna mais afáveis, bondosos, humanitários, sensíveis.
3. A fome do bem e da verdade. É a fome ética. Estamos enfastiados de corrupção e de subdesenvolvimento moral. A mentira é filha do diabo, dizem as Escrituras. A inocência do Menino na estrebaria nos convida à transparência e à prática do bem e da verdade. O bem é bom e belo. O bem faz bem. A Verdade gera confiança e protege a fidelidade.
Jesus passou fazendo o bem e proclamou que Ele mesmo é a verdade. Bento XVI escreveu a carta ''Caridade na Verdade'', para que fé e razão, ciência e religião procurem a verdade que liberta. O Menino de Belém deixou-nos o Santo Evangelho, o mandamento do amor, as bem-aventuranças como caminho de vida e de felicidade. A obediência da fé, abre-nos à verdade que liberta. Que o Menino nos livre da soberba filosófica, da arbitrariedade, da corrupção e da mentira. Ele é a eterna verdade que sacia nossa fome ética pela ''lógica do amor''. O amor é a verdade. O amor é benevolência.
4. A fome de Deus. É preciso construir oficinas de trabalho e oficinas de oração, dizia o prefeito de Florença, La Pira. O que fui na vida política eu devo à minha vida espiritual, afirmava Gandhi. Ou seremos adoradores ou não seremos nada. Os que colocaram Deus no exílio construíram um mundo desumano. Sem Deus somos uma ''cloaca de incertezas'' (Pascal). O humanismo sem Deus é desumano. Rezo para ser justo com minha alma, afirmava Dom Hélder Câmara.
A fome de Deus é tão voraz que no seu lugar erigimos ídolos escravizadores e catedrais do consumismo. Sem Deus o ser humano é ainda mais perigoso, perverso e perversor. O princípio da sabedoria é o respeito por Deus. Quem não reza cai na frustração, no vazio e na animalidade. V. Frankl coloca em Deus o sentido último da vida sem o qual permanecemos insatisfeitos, doentios e desencontrados. A fome de Deus está clamando nas culturas, nas consciências e nos corações. O Natal é a festa da saciedade de nossas quatro fomes. Vamos a Belém com os anjos, Maria e José, os pastores e os magos. Vindo adoremos!
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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