A cada R$ 50 mil desviados dos cofres públicos, uma vida poderá ser sacrificada



Por muitas vezes, quando se fala em política, as pessoas traçam uma relação direta entre ela e a corrupção. A palavra ''corrupção'' tem origem no latim e significa ''deterioração'', ''podridão'', remetendo imediatamente a uma sensação
de repulsa. Pode-se afastar ou combater aquilo que causa repulsa. No caso da política, a atitude deveria ser não de afastamento, mas de combate à corrupção, pois o ônus social dela atinge a todos. A passividade, a condescendência e o não combate aos atos ilícitos, alimentam a corrupção. Por exemplo: que incentivo um comerciante devidamente estabelecido, pagador de impostos e taxas, tem para continuar sendo ético, se há aqueles que se estabelecem nas calçadas, contra a lei, não pagam suas obrigações e não são punidos?
Em 2005, houve uma campanha publicitária publicada na revista Exame, cujo tema foi ''Ou o Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil''. Nela, um dado assustador: a corrupção movimenta aproximadamente R$ 380 bilhões por ano no Brasil. Dinheiro que poderia estar sendo investido em saúde, educação, moradia, redução das desigualdades sociais, enfim, no bem estar da população e no crescimento do país.
Há vários anos o tema vem ganhando destaque nos noticiários. Os debates, em sua maioria, apontam os custos econômicos da corrupção e suas consequências sociais. Medidas preventivas precisam ser pensadas. A prevenção e o combate à corrupção passam pela educação do povo e pela adoção de práticas que valorizem a ética, a transparência e incentivem a lisura nas ações.
É necessário que as escolas se envolvam no processo de construção da cidadania. Para alguém exigir seus direitos e exercer seus deveres, é necessário primeiro, conhecê-los. Conhecer e acompanhar a administração pública em todas as suas nuances, é inerente ao exercício coerente da cidadania. Com acesso facilitado às informações (transparência) é possível o controle da sociedade sobre a gestão pública.
Porém, a falta de acesso às informações é um problema grave quando se observa que a maioria da população só tem acesso ao rádio e televisão. Que em muitos locais há poucos - e manipulados - canais de televisão disponíveis Certamente uma das principais armas contra a corrupção seja a publicidade ampla da condenação. Isso não é real ainda. Apesar do bom trabalho que a Receita Federal, a Polícia Federal e o Ministério Público vêm desenvolvendo, a punição dos corruptos quase sempre é demorada, desconhecida e nem sempre ocorre. Pensando na nossa cidade: Quanta vergonha e constrangimento nós londrinenses já sentimos pelos escândalos políticos em rede nacional? Quantos políticos corruptos foram presos? Quantos devolveram o que extorquiram dos cofres públicos? Quantos hospitais, moradias e escolas poderiam ter sido construídas com esses recursos?
Sabemos que a cada R$ 50 mil desviados dos cofres públicos, uma vida poderá ser sacrificada por ausência de recursos para o atendimento de um doente. No entanto, como entender este contraste: se por um lado há uma profunda indignação e justa revolta causadas pelo assassinato de uma criança (no caso de Isabela Nardoni), ou no caso da mãe que ateia fogo na própria filha (acontecido aqui em Londrina) e, por outro lado o que se vê é esta passividade impressionante diante dos desvios de verbas públicas, tão assassinos quanto os casos citados.
As palavras de Martin Luther King estão repletas de sentido: ''O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons''.
Então, fica o alerta hoje, Dia Mundial de Combate à Corrupção. Chega de esperar pelos outros! Participe da administração da sua cidade! Não podemos permitir que a corrupção acabe com o Brasil. Nem com Londrina!

INÊS WOLFF é nutricionista e presidente da Transparência Londrina

mockup