ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de dezembro de 2009
Altair Aparecido Galvão 
Agricultura familiar
chega a responder
por 70% da produção
total de alimentos
da cesta básica
O Censo Agropecuário de 2006, que só se tornou público em 30 de setembro passado, mostra que nos últimos dez anos o agronegócio brasileiro progrediu, adquiriu tecnologia e atingiu um nível de produtividade nunca dantes alcançado. Esse aparente progresso, no entanto, não alterou uma triste realidade: a concentração de terras nas mãos de poucos. A pesquisa, que antes só havia sido realizada em 1995 e 1996, retrata que o número de grandes propriedades aumentou. Essa disparidade permanece praticamente inalterada há mais de 20 anos, desde 1985.
Conforme a pesquisa do IBGE, as propriedades menores que 10 hectares representam menos de 2,7% da área agrícola, enquanto as áreas com mais de 1.000 hectares concentram mais de 43%. Para realizar esse trabalho, o Instituto utiliza o Índice Gini - medida internacional de desigualdade. Pela tabela de Gini - que vai de zero a um, quanto mais próximo de um, maior a desigualdade -, o uso do solo no Brasil é de 0,872.
Para Antonio Carlos Florido, gerente do Censo Agropecuário do IBGE, ''o índice de Gini não qualifica a concentração. Apenas indica se ela aumentou ou não''. Para estudiosos ligados aos grandes proprietários, o aumento da concentração é uma imposição econômica e reflete o modelo escolhido pelo Brasil, ou seja, uma agricultura de resultado, competitiva.
Também por meio do Censo Agropecuário, o IBGE traçou um perfil da agricultura familiar do país e mostrou que ela é responsável pela produção de alimentos da cesta básica, chegando a responder por 70% da produção total e chega mesmo a superar, em alguns casos, o agronegócio. O censo mostra que, em 2006, essas pequenas propriedades foram responsáveis pela produção de 70% do feijão consumido no país. Outros importantes itens foram igualmente produzidos com destaque pelos pequenos produtores, como a mandioca (76%), leite (55%) e o café (38%).
A diferença entre o mundo do agronegócio e da pequena agricultura ou familiar é que o modelo da primeira, chamada de moderna, é altamente dependente de insumos, cada vez menos acessíveis ao pequeno agricultor que nada mais é do que um trabalhador, muito se assemelhando àqueles das cidades. A dívida que os agricultores têm nos bancos, que vem sendo rolada, tem juros pagos por toda a sociedade, logo é um modelo sustentado por todos. Aí também encontramos uma discrepância: quando os pequenos agricultores, que pagam juros maiores, não podem saldar suas dívidas são obrigados a vender tudo o que tem, inclusive suas pequenas propriedades para os latifundiários. Com isso, acabam migrando para as cidades onde vão engrossar o exército de trabalhadores sem qualificação, o que leva uma boa parcela para a marginalidade. Os grandes proprietários, além de ter ''direito'' a juros menores, ainda conseguem outros privilégios junto aos bancos graças às intervenções da bancada ruralista do Congresso.
Um paradigma que precisa ser quebrado é aquele de que quando a agricultura vai bem todos na sociedade se beneficiam. Não é bem isso que acontece. Quando as exportações de carne, soja, milho, etc., estão em alta quem se beneficia diretamente são os grandes proprietários rurais e as multinacionais que comercializam sementes, adubos, corretivos, além dos agrotóxicos. Isso fica bem visível quando notamos, nas ruas das cidades do interior, o desfile das caminhonetes e peruas brilhando de novas, potentes e com valores de seis dígitos.
É sabido que todo o alimento que chega à nossa mesa passou pelas mãos de um trabalhador da agricultura e muitas vezes isso passa despercebido aos olhos da sociedade. Mas é muito irritante, e até mesmo constrangedor, quando vemos nos imponentes veículos desses latifundiários um plástico onde se lê: ''Você se alimentou hoje? Agradeça ao agricultor''. Como se todos não tivéssemos de pagar por esse alimento. Seria o caso de acrescentarmos: ''Você está dirigindo um veículo hoje? Agradeça ao metalúrgico'', ou ''Você está vestindo uma roupa hoje? Agradeça à costureira'' ou ainda ''Você está lendo este jornal hoje? Agradeça ao gráfico''.
ALTAIR APARECIDO GALVÃO é cientista social, mestre e doutorando em Geografia Humana em Maringá


