O sorriso das crianças ''destaques do ano'', fotografado para a reportagem ''Bons alunos premiados'' (Folha Cidades, pág. 1, 27/11), evidencia o resultado de uma prática comum nas escolas: levar os alunos a competirem entre si com o intuito de envolvê-los com as atividades escolares. Trazida do mundo do trabalho ou dos esportes, pressupõe-se que na escola a estratégia de premiar os melhores também funcione. No entanto, não foram fotografados os alunos que não participaram do jantar ou receberam medalhas. Ficaram eles pensando a respeito de como fazer para vencer na próxima competição? Sentiram-se fortalecidos e com expectativas positivas de vitória para a próxima etapa? Pensaram nos colegas vencedores como bons modelos a serem imitados?
Uma vasta literatura acerca da motivação no contexto escolar, apoiada em centenas de pesquisas empíricas, afirma que não. A competição nesse ambiente motiva apenas os ganhadores ou aqueles que estão próximos do desempenho exigido. Parece que existem alguns poucos predestinados para a vitória, sempre os mesmos. Na própria reportagem foi ressaltado que alguns alunos receberam o prêmio pela terceira vez. Podemos antever que serão vitoriosos novamente, pelo fato de terem conhecimentos prévios, habilidades ou comportamentos valorizados pela escola.
O clima de competição no contexto escolar representa uma espécie de currículo oculto vigente que leva os alunos a se autoavaliarem em seu desempenho sempre em comparação com os outros, com consequências para sua motivação e para o próprio rendimento. A competição retrata um momento específico, tornando invisível o esforço de muitos. Por exemplo, o resultado de desempenho de um aluno que se interessou por um conteúdo escolar e que, para saber mais, despendeu tempo e energia, comparativamente, pode ser inferior a um colega ''destaque''. Para este último, considerando seus conhecimentos anteriores, talvez nem tanto esforço pode ter sido necessário para alcançar os resultados, merecedores de premiação. A competição reproduz na escola o que é comum na sociedade: vencem os melhores e os demais ficam de fora.
É enganosa a afirmativa de que se no meio esportivo a competição é poderoso incentivo para todos, assim também o será em sala de aula. Diferentemente dos esportes, em que há múltiplos incentivos, mesmo para perdedores em potencial, a escassez de vantagens disponíveis na escola sustenta a motivação de apenas uns poucos. Da mesma forma é falaciosa a argumentação de que, por meio de situações de competição, os alunos adquirem habilidades importantes que auxiliarão a atuarem num mercado de trabalho ou num mundo de produção altamente competitivos. Poderá competir com sucesso no mundo empresarial ou profissional somente a pessoa que tiver adquirido sólidas competências nos anos escolares, o que representa o desenvolvimento de todo o seu potencial intelectual. Isso exige uma percepção positiva acerca das próprias capacidades de aprender mediante esforço, percepção essa fortemente prejudicada por derrotas ou fracassos sucessivos.
Qual é a escola que precisamos? Aquela que fortalece alguns e deixa a maioria com o gosto da derrota? A literatura científica sugere que, ao invés de serem levados a competir entre si, os alunos deveriam ter o próprio desempenho como referência, assim, o destaque seria dado aos alunos que se superassem. Nesse caso, não seriam necessárias medalhas, mas um sorriso de reconhecimento, um bilhetinho, atenção e acolhimento por parte do professor. Ações simples serviriam para alunos acostumados com a derrota como um sinal de que o emprego de esforço é importante e traz resultados.
Observamos que a pesquisa científica é socialmente necessária, desde a oferta de um medicamento para o consumo, até para a colocação de produtos esportivos no mercado. Na educação, infelizmente, continuamos atuando por ensaio e erro, pautados no senso comum e na intuição. Coragem crianças que por mais uma vez ficaram do lado de fora da festa.
SUELI ÉDI RUFINI é docente do mestrado em Educação na Universidade Estadual de Londrina

mockup