ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Sueli Galhardi 
Muitas mulheres
não reconhecem a
violência que
estão sofrendo
O dia 25 de novembro foi instituído como uma data para a sociedade lembrar, protestar e se mobilizar pela não violência contra a mulher. A data foi definida em 1981 durante o 1º Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, realizado em Bogotá, na Colômbia. A escolha desse dia foi para homenagear as irmãs Mirabal (Pátria, Minerva e Maria Teresa) assassinadas pela ditadura de Leônidas Trujillo na República Dominicana.
Em todo o mundo o enfrentamento à violência contra a mulher se constitui em uma preocupação fundamental dos movimentos sociais. Este tipo de violência foi naturalizada no decorrer da história de tal forma que, assim como muitos homens não assumem que estão sendo violentos, muitas mulheres também não reconhecem a violência que estão sofrendo.
O agressor muitas vezes apenas repete padrões de comportamento que presenciou em casa enquanto criança. Essa falta de entendimento gera a ''invisibilidade'' da violência doméstica, passando a ser um problema restrito entre as quatro paredes legitimando o jargão popular ''em briga de marido e mulher não se mete a colher''. Dessa maneira, a situação de violência em que se encontram muitas mulheres acaba se perpetuando na sociedade. Na ponta do iceberg, representada pelos casos de agressão que repercutem na mídia e pelas mulheres que buscam ajuda especializada, estão incontáveis casos de violência diária sofrida pelas mulheres de todas as classes sociais.
Portanto, ao refletirmos sobre o significado deste dia, precisamos nos distanciar dos nossos próprios preconceitos. Afinal, quantos de nós já julgamos, questionamos ou mesmo condenamos mulheres que sofrem violência e perpetuam seu ciclo de opressão, sem percebermos o lugar de pertencimento dessas mulheres, suas condições sociais, econômicas, religiosas e culturais para romperem esta barreira.
É preciso considerar que as desigualdades entre homens e mulheres, foram estruturadas e consolidadas por uma construção milenar. Durante séculos, as mulheres foram educadas para submeterem-se aos homens, delimitando o poder entre os sexos. Mesmo quando a norma legal é de igualdade, na vida cotidiana encontramos a desigualdade e a iniquidade em relação ao poder e às oportunidades entre homens e mulheres.
A atuação do movimento feminista teve o mérito de ''politizar o privado'', inserindo no debate público temas até então considerados de âmbito doméstico e, portanto, de menor importância social e política. No Brasil, graças à reação e à mobilização do movimento de mulheres, há aproximadamente três décadas a violência contra a mulher entrou para o debate público como questão a ser tratada por meio de políticas específicas de prevenção e combate, requerendo mobilização efetiva de setores públicos e da sociedade civil.
A criação de delegacias especializadas, casas abrigos, centros especializados de atendimento à mulher, conselhos de direitos, coordenadorias e secretarias municipais da Mulher são exemplos concretos do resultado da luta das mulheres por autonomia, respeito, valorização e igualdade de direitos. A existência desses serviços, da Lei Maria da Penha, bem como de todo aporte jurídico voltados à proteção das vítimas, são indubitavelmente conquistas importantes que devem ser garantidas a todo custo. No entanto, a efetiva luta em prol das mulheres deve resgatar a radicalidade feminista ampliando nossa percepção e nossa ação sobre as diversas formas de violação às quais, historicamente, as mulheres vêm sendo submetidas.
Neste dia especial em que a sociedade é conclamada a dizer não à violência contra a mulher, queremos homenagear as inúmeras mulheres que dedicaram sua vida à luta por justiça e igualdade. Resgatemos o sentido dessa luta que passa pela transformação das relações desiguais de gênero como caminho para garantir de fato os direitos das mulheres.
SUELI GALHARDI é secretária Municipal da Mulher de Londrina


