ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Cezar Bueno 
Pais e mães, empurram
a responsabilidade
da educação dos filhos
aos professores e
exigem aquilo que eles
não podem oferecer
O modelo de vida atual não permite que as famílias chamem para si a responsabilidade integral pela educação de seus filhos. O advento do capitalismo industrial urbanizado expandiu a produção, imprimiu revoluções tecnológicas constantes, universalizou o sistema de trabalho assalariado e estabeleceu a maior e mais complexa rede mercadológica, destinada a capturar, orientar e reduzir o significado da liberdade individual e coletiva à realização do consumo. Desde então, as tarefas de educar, incutir sólidos valores humanos e preparar o futuro profissional infanto-juvenil escaparam ao poder das famílias e foram monopolizadas por instituições especiais como o Estado, o mercado e a mídia.
Hoje o excesso de trabalho e deveres profissionais exigem que pais e mães distanciem-se física e espiritualmente dos filhos. Em muitas ocasiões, transportam os problemas para o lar onde a presença física colide com preocupações fora de casa. No interior das residências, apartamentos e palafitas, o mundo midiático e virtual se incumbe de pensar, agir e orientar escolhas individuais coletivas. O diálogo e a intervenção familiar são vencidos pela TV e internet as quais monopolizam as falas, exprimem desejos, satisfazem vontades e educam para determinados fins. O poder sedutor da mídia é tanto que a hipótese da queda momentânea do fornecimento de energia residencial serve não para provocar o início e prosseguimento da conversa entre pais e filhos reunidos, mas para dispersá-los rapidamente da sala.
Para dar conta de um mundo completamente mercantilizado pais e mães precisam aumentar a carga de trabalho e, com isso, aprofundar a distância em relação aos filhos. Às vezes, tudo o que podem fazer é diminuir os sentimentos de culpa, falta de diálogo e de tempo, empurrando os pequenos em direção aos shoppings. Muitos pais, mesmo sem pensar, são levados a aderir ao consenso ideológico que promete resolver a ausência, a falta de diálogo e de tempo com o poder aquisitivo do bolso. Assim, trabalhar mais e ganhar mais é uma maneira que as famílias encontram para aprofundar o distanciamento físico, cultural e afetivo da prole, prometendo-a presentes e outras coisas materiais no fim do ano.
Para isso, contam com o poder sedutor e eficiente da indústria do marketing e com a ajuda dos peritos do comportamento humano, pagos para descobrir novos produtos e criar desejos aptos a esvaziar as prateleiras que estampam os produtos da última moda. O desafio dos marqueteiros é mostrar que mercadorias têm vida, precisam dialogar e vencer a frágil resistência do cliente afoito. Se a estratégia der certo, o consumidor é levado a consumir algo muito além daquilo que racionalmente precisa para viver. Esse vasto e permanente mercado de produção, consumo e destruição criativa não poupa ninguém, porém, busca fazer das crianças e mulheres suas vítimas preferenciais. Uma quantidade infindável de brinquedos, roupas, sapatos, peças íntimas e acessórios de beleza sai da linha de produção com data marcada para voltar ao lixo. A linha de demarcação entre a moda, o luxo, o obsoleto e o aterro sanitário é tênue e sutil.
A educação para o consumo não conhece limites. Os brinquedos infantis são produzidos e divididos conforme o ideal sexual flutuante de família, imaginado pelos escribas do mercado: rosa para elas, azul escuro para eles. Se houver demanda adicional, as cores se proliferam e se intercalam. O mercado não nutre valores morais e familiares duradouros. Seu único preconceito é não ganhar dinheiro. Sua religião é o lucro.
Pais e mães cansados, espremidos pelo tempo e pela necessidade de saldar dívidas empurram a responsabilidade da educação dos filhos aos professores e exigem destes àquilo que eles, em si, não podem oferecer: uma educação profissional e humana capaz de forjar a formação de sujeitos livres, tolerantes, autodeterminados e emancipados.
CEZAR BUENO é sociólogo e professor de sociologia da Unifil e PUCPR, campus Londrina


