Não se fala a respeito dos
estímulos para se tornar um
professor, haja vista que
não se trata apenas de dom




Desde o início de setembro está sendo veiculada na TV e na internet uma propaganda do governo federal muito interessante. São mostrados flashes de alguns países que tiveram avanços sociais e econômicos significativos nos últimos 30 anos: Coreia do Sul, Espanha, Finlândia e, já esperados, Alemanha, França e Inglaterra. Assim que apontados seus nomes, vemos imagens pujantes desses lugares. Diz a narração: ''Nós perguntamos a pessoas desses países: Qual é, na sua opinião, o profissional responsável pelo desenvolvimento''? Os entrevistados, sem hesitação, respondem: ''O professor'' (cada um em sua respectiva língua). Em seguida aparece uma professora brasileira convidando-nos a sermos também um professor, ajudando nosso país a ser mais desenvolvido, justo e com oportunidades. Outra voz incita-nos: ''Informe-se no portal do MEC''.
Vamos ao portal do MEC (www.mec.gov.br) e vemos que essa propaganda está a serviço da ''valorização do professor'', sem maiores especificações. Aliás, lá está apenas como mais um dos ''Vídeos em exibição''. Valorização onde, então? Apenas para rever o que está sendo mostrado exaustivamente em outra mídia? Mas não sejamos apressados. Exploremos o site do Ministério. Encontramos lá um link, ''Piso salarial dos professores''. Conferimos, Lei nº 11.738, artigo 2º: ''O piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica será de R$ 950 (...)''.
Normalmente, o fato importante num anúncio é aquele escondido. Nesse, não se fala a respeito dos estímulos para se tornar um professor, haja vista que não se trata apenas de dom, talento ou aptidão. Não é comentado quanto esses países gastaram em educação para que seus cidadãos alcançassem as promessas e desafios lançados pela professora compatriota. De salário do professor e infraestrutura dispensada ao desenvolvimento, nenhuma palavra. Fica subentendida uma igualdade simplista: país desenvolvido = professores em quantidade máxima.
Qualquer edital de concurso publicado é um escárnio ao professor (ensino básico ou superior). Para algum técnico judiciário, exigindo apenas ensino médio, oferece-se R$ 2 mil iniciais. Para professor, quando muito, R$ 1 mil. Um técnico judiciário, um bombeiro, um agente rodoviário, todos são importantes na engrenagem social. E o professor? Assim, não dá para sermos hipócritas e exigirmos doação, complacência e atos de heroísmo a essa classe de trabalhadores. Vivemos em um meio fundado no lucro, no conhecimento e na aparência. Por que solicitar, mesmo exigir (quando muito!) do professor somente o segundo?
Essa campanha do MEC faz pensar em um outro fato envolvendo o trabalho de professor, mesmo que sob um viés oblíquo. Talvez seja até um caso distante, sem nada a ver com o que foi falado até aqui. Será mesmo?
Quase dois meses atrás, vimos a notícia de demissão de uma professora de Salvador-BA pelo fato de ela ter subido ao palco e participado de uma dança insinuante e agressiva. Dolorosamente, o título da música: ''Todo enfiado''. No auge do refrão, a professora tinha seu vestido levantado e exposta a metade inferior do seu corpo. Curiosa foi sua escolha: após ser demitida e achincalhada por vizinhos e demais pessoas, a moça resolveu trocar de profissão e tornar-se dançarina do grupo musical que a consagrou.
Uma pena? Um disparate? Nada mais lógico! Claro que talvez sua antiga profissão não combine com danças esdrúxulas e vulgares. Mas penso se também não representa uma parte da educação brasileira, se não é um sintoma e alerta para muitos. Principalmente, um alerta para que nossa educação não seja realmente valorizada apenas pelas partes íntimas do corpo de seus professores.
MIGUEL HEITOR BRAGA VIEIRA é professor do departamento de Letras da Universidade Estadual de Londrina e da UENP em Cornélio Procópio

mockup