ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Jefferson Rosa Cardoso 
O método científico tem
uma longa tradição de
transformar nossas
vidas, e isto é papel
das universidades
O artigo ''Professor universitário: futuro sombrio'', do professor José Luciano Tavares da Silva (Espaço Aberto, 16/10), mistura opiniões e acusações sobre o ensino superior e teve pontos conflituosos que até Nostradamus se inquietaria: produção científica e ensino. A produtividade de um docente está em voga e causa desconfortos. Muito se deve às duas entidades governamentais que controlam o sistema de Pós-graduação Strictu-Sensu (mestrados e doutorados) e o próprio pesquisador: a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
O frenesi provocado por esses dois órgãos sobre as universidades é intrigante. A produtividade é importante? Sim, porque com ela, o docente pode pleitear aulas em programas de mestrado, orientar alunos (individualmente) e obter recursos financeiros.
A Universidade Estadual de Londrina (UEL) possui quase 900 doutores e, destes, um terço atua nos cursos de Strictu-Sensu e, por consequência, são mais produtivos e contribuem para que a universidade consiga financiamentos (laboratórios e equipamentos). Os demais docentes, que não fazem parte desse ciclo, contribuem de outra forma, com mais aulas na graduação, em projetos extensionistas e participações em comissões. Isto é louvável. Essa dicotomia criada pelos que não escrevem manuscritos (pelo menos um por ano) e desejam fazer parte do sistema regulador e produtivo é de mau gosto.
Há quase 400 anos as conjunturas regulatórias eram bem piores, principalmente por não agradar a doutrina religiosa. Galileu, que não se graduou em Matemática, desafiou e desbancou Aristóteles, enalteceu Arquimedes e influenciou várias pessoas, como Newton, Einstein e, em particular, o astronauta da Appolo 15, David Scott que em 1971, comentou, após um experimento na Lua, sobre um objeto em queda: ''Isto prova que o senhor Galileu estava correto''. Portanto, o método científico tem uma longa tradição de transformar nossas vidas e, isto é papel das universidades.
A publicação dos nossos experimentos deve servir, sim, como exemplo para nossos alunos, para modificar a vida das pessoas e para influenciar o futuro deste planeta. Neste momento, docentes estão livres para produzir cientificamente tópicos sobre fisiologia humana, por exemplo, ou simplesmente ministrar aulas.
Quanto ao ensino, o referido artigo aponta que há uma correlação entre ser docente produtivo e a falta de compromisso com os alunos. Isso é bizarro. Há professores desmotivados, desatualizados e que não compreendem seu papel, mas, a partir daí, generalizar e afirmar que os culpados são os docentes produtivos que se recusam a entrar em sala e que são péssimos exemplos, quando abordam as disciplinas por meio de seminários, é uma irresponsabilidade. A história do ensino no país é uma epopeia. Foram quatro séculos e meio de inércia, ganhamos de Portugal uma educação ressequida. Se tivéssemos que destilar nossa ira, deveríamos fazer sobre Marquês de Pombal! Para recuperar o atraso, o preço se torna muito alto pelo excesso dos nossos órgãos regulatórios.
Posso ser hostil com o desconhecido? Conheço os cursos de graduação e de Strictu-Sensu da UEL? Conheço os professores? Frequento as bibliotecas rotineiramente? A UEL está cheia de profissionais de formação duvidosa e meu filho corre risco? Não. Por isso a colocação feita gera inquietação, sugere denúncia pontual, cobrança de melhorias e indignação pelos que honram o compromisso assumido. Quando li o artigo citado tinha acabado de explorar com meus alunos os mesmos experimentos de Arquimedes.
JEFFERSON ROSA CARDOSO é professor de Fisioterapia da Universidade Estadual de Londrina


