Faz-se ne­ces­sá­rio a
va­lo­ri­za­ção tan­to do
bom pes­qui­sa­dor quan­to
do bom ­professor




Em seu livro ''Entre a Ciência e a Sapiência'', o consagrado escritor, professor e psicanalista Rubem Alves critica a ideologia presente em nossas universidades utilizada para avaliar a produtividade dos professores. Tal ideologia pode ser resumida nas palavras ''publish or perish'' (''publique ou pereça''). Nesta concepção, observa-se uma relação direta entre o número de publicações em revistas internacionais indexadas apresentadas por determinado docente e sua valorização pela instituição e por seus pares. Quanto ao motivo primordial pelo qual ele foi contratado, o ''magistério superior'', a importância, se houver, será muito menor, pouco importando se é bom ou mau em sala de aula, pois jamais será lembrado por seus feitos neste âmbito.
O significado etimológico da palavra ''docente'' que é ''aquele que ensina'' praticamente deixa de ter sentido. A exigência cada vez maior de produção científica na qual o docente ''vale o que publica'', implica muitas vezes em superficialidade no conjunto do conteúdo que deveria ser administrado aos estudantes, tendo em vista ser cada vez mais raro encontrar docentes que, pressionados pela necessidade de publicação, ''percam'' o precioso tempo que poderiam dedicar a seus artigos estudando e preparando aulas.
A atividade de ensino está reduzida a um mero empecilho para a atividade de pesquisa e consequentemente às publicações, estas absolutamente necessárias para defrontar as exigências da instituição. Isso frustra os alunos que têm interesse em aprender e favorece aqueles cujo interesse no ensino superior resume-se apenas a conseguir o diploma.
Infelizmente, essa postura de descompromisso com o ensino vem alastrando-se como vírus de gripe. Tome-se como exemplo os famosos ''seminários'' onde temas de aulas são sorteados a grupos de alunos, os quais apresentam o tema à turma, papel que caberia apenas ao professor. Este por sua vez pode dar-se ao luxo de entrar em sala de aula sem inteirar-se do conteúdo a ser ministrado, talvez aproveitando este tempo ''livre'' para reler seu artigo, pensar no próximo experimento ou até tirar uma soneca.
Para suprir a demanda de conteúdo programático são contratados professores temporários, com baixos salários, carga horária altíssima, mais de um emprego e obviamente sem tempo e disposição para algum compromisso mais sério com a aprendizagem do aluno. Não é de se admirar que o docente esteja sendo relegado a um papel secundário no processo ensino-aprendizagem. Pode-se citar como exemplo o que já vem ocorrendo em algumas instituições, nas quais observa-se a substituição de até 50% da carga horária de aulas de algumas disciplinas por conversas virtuais na qual a presença física do professor é desnecessária. Do jeito que são ministradas, muitas aulas são perfeitamente dispensáveis. Melhor faz o aluno em tentar aprender sozinho, seja visitando a biblioteca (que por vezes também é uma lástima), seja navegando por sites obscuros e de conteúdo duvidoso.
Nessa concepção, nota-se que a profissão de professor universitário tem caminhado a passos largos para um futuro sombrio: a extinção. Faz-se necessário a valorização pelas instituições de ensino superior tanto do bom pesquisador, que teria como prioridade produzir boa ciência e para tanto teria à disposição recursos financeiros suficientes, quanto do bom professor que teria como prioridade ministrar boas aulas, divulgando a ciência produzida por seus colegas. Assim, cada qual apresentaria seu papel, colaborando à sua maneira para a melhoria dos recém-formados. Todos só teriam a ganhar, principalmente os que colocam a própria vida e a de seus filhos nas mãos de profissionais de formação no mínimo duvidosa e cada vez mais despreparados para o exercício da profissão.

JOSÉ LUCIANO TAVARES DA SILVA é docente do departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade Estadual de Londrina

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