ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de outubro de 2009
Ricardo José Rodrigues 
É preciso explicar
e discutir com os
pacientes o melhor
procedimento para eles
Dona Carolina entra no consultório, já com seus 70 anos, argumentando que o atraso lhe causara problemas. O médico explica que houve intercorrências, a agenda está apertada e ainda há um bom número de pacientes a serem atendidos.
Dona Carolina refere-se a dores pelo corpo todo, inclusive no peito, mas o que mais a aflige é a preocupação com os filhos e o marido que ela cuida sozinha, pois seu estado de saúde está piorando.
O médico apreensivo olha para a senhora, percebe que a dimensão do problema não é apenas físico. Terá que ouvir, receitar e dar as orientacões necessárias para a sua melhora. Para a hipertensão arterial receita duas medicações, para o colesterol mais uma e AAS para evitar derrame e infarto.
Então, entra na sala a neta, questiona sobre a associação de medicações e refere-se que leu na internet que os remédios podem levar à depressão, solicita todos os exames para ter certeza que a avó não está tão doente assim, afinal vamos fazer um chek up completo doutor.
Os médicos lidam com essas situações todos os dias: tempo escasso, pacientes bem informados pelo Google, vários empregos, pressão econômica dos convênios, gestão de clínicas, etc. Somam-se as mudanças constantes da tecnologia, novos exames, alguns de utilidade, outros nem tanto, novos medicamentos que levam à necessidade constante de atualização.
Para cumprir o que a sociedade espera de nós, é preciso lutar por salários e condições de trabalho dignos, porque hoje é humanamente impossível ser bom médico sem assinar revistas especializadas, ter acesso à internet, frequentar congressos e estar alfabetizado em inglês (língua oficial das publicações científicas).
Num campo em que novos conhecimentos são produzidos em velocidade vertiginosa, os esforços para acompanhá-los devem fazer parte de um projeto permanente. Esta equação resulta em números impressionantes revelados pelo levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina: 44% dos profissionais de saúde apresentam quadro depressivo (na população são 12%), 59% têm múltiplos empregos, 20% apresentam problemas cardíacos, possuem uma carga horária média de 52 horas (30% trabalham mais de 60 horas).
Mesmo diante de tantas dificuldades, a profissão médica apresenta uma das mais baixas desistências ou desvio para exercer outras atividades. A explicação para esta postura é a paixão pela profissão, a dedicação à vida, a vontade de vencer desafios.
Uma das soluções para diminuir o estresse da profissão é reforçar a relação médico-paciente, estreitá-la, fazer de fato uma parceria com o paciente pela saúde, um comprometimento mútuo entre o doente e o doutor, onde o resultado vai além das tecnologias e dos novos medicamentos.
Os tempos de imposição de conduta e de garranchos se acabaram e não vão voltar. É preciso explicar e discutir com os pacientes o melhor procedimento para eles, aliviar o sofrimento se a cura não for possível. Ter sentimentos humanísticos apurados, compaixão, humildade e reconhecimento das limitações da medicina, aptidão para gerar esperança e sobretudo viver o dia a dia das pessoas, são armas que o médico possui para manter viva a motivação pela profissão e enfrentar suas dificuldades.
Para a manutenção da autoridade da medicina é preciso focar no cuidado da dona Carolina, não apenas nas suas doenças ou nos seus exames, estreitar e manter com ela credibilidade e confiança, duas características da profissão médica que não mudaram desde a sua criação e ainda são a sua base .
RICARDO JOSÉ RODRIGUES é médico cardiologista e professor da Universidade Estadual de Londrina


