Ser criança e brincar: paradoxo da modernidade
Anilde Tombolato Tavares da Silva


Outubro chega e a mídia nos lembra de forma incisiva que é mês das crianças, nos mostra o quanto ser criança é prazeroso e passa uma ideia idealizada da infância como um período livre das asperezas do mundo. E, por isso mesmo, precisa brincar e ser presenteada com o melhor e o mais atraente que o competitivo mercado dos brinquedos dispõe.
Nesse sentido, proponho refletir melhor o significado do ''brincar'' e do ''brinquedo'' para o desenvolvimento da criança diante de uma sociedade onde a experiência da infância sofre com a sua (in)visibilidade.
A criança não é vista como criança, mas como um ''homúnculo'' ou um ser em miniatura, desprovido de especificidade própria e originalidade. Aquele que se caracteriza pela ausência de fala e pela sua incompletude e, portanto precisa de um ''mundo adulto'' para definir, escolher e traçar seus desejos e assim, vai produzindo brinquedos cada vez mais tecnológicos, sofisticados, cheios de luzinhas, movimento, som, reproduzindo cada vez melhor os instrumentos do mundo adulto miniaturizados.
O brinquedo deixou, assim, de ser um produto artesanal, cuja pluralidade de formas e materiais dava vazão ao subjetivo conteúdo imaginário da criança para adquirir status de fabricação especializada, em que a imaginação e criatividade vem acoplada às instruções de uso.
O preestabelecido conteúdo imaginário do brinquedo vem pronto e determina a brincadeira da criança, abrindo mão de sua própria iniciativa lúdica.
O filósofo alemão Walter Benjamin já nos alertava que ''quanto mais atraentes os brinquedos, mais distantes estarão do seu valor como ''instrumentos'' de brincar. E assim, os brinquedos vão definindo a brincadeira da criança.
Essa relação deveria se dar pelo caminho inverso, pois é na brincadeira que a criança busca incluir seu brinquedo ou objeto de brincar. O brinquedo deve ter a única função de assumir seu maior valor simbólico como ''instrumento de brincar''. Deve trazer em si qualidades miméticas específicas para o entretenimento da criança, deve ser tocado e manuseado, sem risco de se decompor ou perder as funções.
A brincadeira deve ser um ritual em que a criança consegue diluir-se no espaço, no lugar e no tempo para dar significado ao objeto que manipula. Brincar é lançar uma ponte entre a fantasia e a realidade. Neste sentido, o brinquedo deve ter uma única função: a de atender ao imaginário da criança e a sua necessidade de transformar os objetos e sentimentos.
Não significa que esta reflexão busque fazer campanha contra o mercado infantil dos brinquedos, mas levantar um alerta aos pais e educadores para o verdadeiro sentido do brincar e do brinquedo para o desenvolvimento da infância.
Não importa quais são os ''instrumentos de brincar'' disponíveis, mas estes devem ter o intuito de permitir que as crianças usem seus brinquedos para exercitarem sua capacidade de escolher, adaptar objetos, restos que para muitos podem ser considerados ''inúteis'', para incluí-los, como representação de suas brincadeiras e fantasias.
Devemos ir na contramão do instituído que concebe a criança como categoria (in)visível, uniforme, universal e homogênea e propor junto com ela a sua desconstrução e subsequentemente a reconstrução.
Construir um novo sentido da experiência da infância, longe da visão idealizada do adulto que sempre olha pra traz e contempla com saudade, a sua própria infância.
ANILDE TOMBOLATO TAVARES DA SILVA é professora do departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina

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