A salutar alternância no poder
Ludinei Picelli


Setembro chegou e com ele o alívio de que não haverá o terceiro mandato de Lula, pelo menos via ''golpe branco'' que seria a mudança da Constituição. Não há mais tempo legal para se votar uma emenda constitucional nesse sentido. Assim perde a mentalidade retrógrada de alguns deputados e dirigentes partidários que insistiam na tese da continuidade. Ganha a democracia e seu povo que não servirão de deboches do mundo, que vê Venezuela, Bolívia, Equador e Colômbia mantendo, com reeleições infinitas, déspotas no poder, desgastando ainda mais a imagem triste e combalida da frágil democracia latino-americana.
Livre de se submeter a esse vexame global, o brasileiro precisa entender a necessidade salutar da alternância do poder. Aproxima-se o pleito e desenha-se um quadro com poucas alternativas para as mudanças estruturais que o Brasil precisa. O grande obstáculo para que a alternância ocorra de fato é o projeto de 20 anos de poder do PT (8 anos de Lula + 4 de Dilma + 8 de Lula). E esse é o grande risco para que as mudanças mais profundas aconteçam.
Se ganhamos alguns avanços, principalmente na área da estabilidade econômica com a continuidade do Plano Real e com a seriedade do presidente do Banco Central, perdemos muito com a imoralidade generalizada que tomou conta da administração pública, com o recrudescimento da corrupção e com a ineficiência na aplicação dos recursos públicos. Isso empanou o brilho das conquistas e impediram que o país aproveitasse melhor o ''boom'' global da pré-crise mundial e caminhasse para ocupar um lugar de destaque entre as grandes nações.
Apesar de condições favoráveis como uma carga tributária de primeiro mundo sempre crescente e a arrecadação batendo recordes sucessivos, a capacidade de investimento não aumentou e nem melhorou a qualidade dos serviços públicos e muitos benefícios deixaram de ser oferecidos à população. As nossas graves mazelas continuam como feridas abertas: na Saúde continua morrendo gente nas portas dos hospitais, na Educação muita propaganda e pouca ação, na Segurança Pública um caos total e na Infraestrutura o pouco que se realizou não consegue acompanhar a demanda do desenvolvimento.
Mais do que nunca, as próximas eleições presidenciais deveriam ser marcadas por uma mudança radical na forma de governar o País. É preciso acabar com as bravatas, pois o próximo mandatário da nação herdará um tesouro comprometido financeiramente com acordos e compromissos inadiáveis a curto prazo, tais como: uma máquina administrativa onerosa e inchada fruto de um Estado obeso, o crescente suporte financeiro para os programas sociais praticamente irreversíveis, o volumoso investimento prometido para a realização da Copa 2014 e, talvez, os Jogos Olímpicos de 2016 e o crescente déficit da Previdência Social.
O próximo presidente precisa ter a habilidade para implantar as reformas tributária, política e previdenciária, mas com a profundidade necessária que conduza o País ao sonhado patamar da modernidade. Para isso precisa ter a coragem de romper com o populismo barato, de impor uma liderança de estadista e de saber governar sem a necessidade de ter que ''vender a alma ao diabo''. Precisa ser um governante que debata com a sociedade ao invés de usar o monólogo autocrático dos palanques, que tire o mal informado da caverna da ignorância e que não ofenda o esclarecido com dissimulações, que não seja um mero distribuidor de cestas básicas, mas que conscientize o povo pela educação, resgatando a dignidade de conseguir seu sustento pelos seus próprios esforços e méritos.
Sepultada a ideia do terceiro mandato de Lula, fica latente e bem viva a possibilidade de termos a alternância no poder, com mudanças mais profundas e mais salutares para o País e às futuras gerações. E isso repercutirá positivamente, pois o mundo ficará sabendo que no Brasil, mesmo contando com uma das piores classes políticas do planeta, o povo não desanima e trabalha para mudar democraticamente essa situação.
LUDINEI PICELLI é administrador de empresas em Londrina

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