ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de setembro de 2009
Humberto Yamaki 
É correto substituir e
descartar um material
natural, a pedra, que
ainda pode durar dezenas,
talvez centenas de anos?
Somos o que pisamos. Em Roma flanamos pelas pedras lisas da milenar Via Appia, em Paris caminhamos pelo elegante paralelepípedo em leque da Champs- Elysées, em Kyoto ouvimos os passos nos pedriscos dos templos históricos, nas cidades coloniais mineiras nos equilibramos nas charmosas pedras pé de moleque assim como enfrentamos com vigor a ladeira rugosa do Pelourinho em Salvador. Cada piso, à sua maneira, constitui signo indissociável do lugar e, portanto, seu patrimônio. Assim deveria ser considerado o piso do Calçadão de Londrina, contemporâneo ao Calçadão de Copacabana e reconhecidamente parte de sua marca.
Hoje assistimos no Calçadão de Londrina a uma ruidosa batalha entre ingleses e franceses. De um lado o paver - blocos de concreto e de outro o petit pavet - mosaico de pedras. Nos últimos anos, os franceses - petit pavet, parecem ter caído em desgraça. Agora, é considerado escorregadio, ''devorador'' de saltos agulha e ''atacador'' de idosos.
As cidades do interior que antes lutavam para ter um calçadão-quarteirão em mosaico de pedras branco e preto, agora sonham em ter um piso cinza-concreto, considerado moderno. Dias atrás fui a uma pequena cidade vizinha e lá estavam os novíssimos pavers na praça matriz, anulando o senso de tempo e lugar.
Na verdade, o bloco de concreto intertravado como piso não é novidade em Londrina. Ao caminhar pelo Centro antigo, um bom observador poderá descobrir várias experiências de décadas atrás.
Apresentamos algumas delas. Na calçada externa do Bosque, quase em frente à Catedral, podemos ver um trecho com pequenos blocos de concreto em forma de ''S''. Presumivelmente dos anos 70, permite observar o desgaste que um material artificial apresenta com o tempo. O uso e a intempérie tornaram o piso áspero, poroso e encardido. O mais surpreendente é a solução criativa encontrada para cobrir os trechos escavados para obras de infraestrutura. Sobre os remendos em argamassa de cimento foram carimbados desenhos imitando o ''S'' original.
Do outro lado da alameda encontramos mais um exemplo, desta vez de blocos de concreto sextavados aplicados na calçada. Uma grande variedade de soluções previsíveis no uso e conservação deste tipo de piso pode ser observada: trechos bem assentados contrastam com outros de arremates e remendos em cimento alisado, carimbados, riscados ou simplesmente soltos com o chão de terra vermelha à mostra. Entre as soluções, vale destacar uma que mostra riscos abstratos na argamassa. Sendo o Calçadão cheio de curvas e reentrâncias e tendo em vista as inevitáveis escavações no piso, os artistas do cimento teriam que se desdobrar para desenhar e carimbar incontáveis blocos nos pontos de remendo.
Recentemente um mini-shopping no centro da cidade construiu a calçada com um petit pavet impecável, evidenciando mais uma vez as possibilidades de uso. O segredo para a durabilidade e permanência de um piso parece estar relacionado, portanto, com a qualidade da execução e manutenção constante.
Não faltam os discursos dos ecologicamente corretos e seus pisos mágicos, permeáveis e recicláveis. Historicamente, temos substituído o piso da avenida Paraná a cada 15 anos, em média. É correto substituir e descartar um material natural, a pedra, que ainda pode durar dezenas, talvez centenas de anos? O desafio é construir uma cidade sem apagar as marcas e vestígios anteriores. Sedimentar cada tempo, ainda que em forma de simples piso.
HUMBERTO YAMAKI é coordenador do curso de Especialização em Reabilitação e Regeneração do Patrimônio Cultural na Universidade Estadual de L
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