ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Silvana Mariano 
O debate na Câmara de Vereadores de Londrina a respeito da criação de um feriado em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, revela a persistência do racismo em nossa sociedade. A tentativa do líder do governo, Sebastião dos Metalúrgicos (PDT), de igualar a situação da escravidão negra com a imigração - esta predominantemente europeia e asiática - é vergonhosa e uma afronta ao conhecimento que temos acerca do violento processo de construção da nação brasileira.
A resistência ao projeto de criação do feriado é também mais uma comprovação da existência de obstáculos para enfrentarmos a discussão sobre as desigualdades raciais no Brasil. Alguns tentam nos fazer crer que não existe raça e assim estaria pavimentado o caminho para a negação também da existência do racismo. Sem raça não existe racismo! Outras vezes tentam nos convencer de que o Brasil não tem desigualdade racial, mas sim desigualdade social. Logo, classe social seria a categoria analítica e política primordial para nos dar as respostas necessárias. Valeria dizer que o preconceito e a discriminação não são fundados em marcadores culturais, como a raça, mas sim em critérios econômicos.
Essas abordagens beiram o cinismo ao rejeitar a necessidade de explicar por que negros e negras são maioria entre os mais pobres. A pobreza brasileira tem cor e sexo! Isto é, pessoas negras e mulheres formam a cara da nossa pobreza. Este fenômeno só pode ser explicado se levado em consideração o racismo e o machismo.
Comparações em séries históricas acerca da desigualdade no Brasil revelam o quão persistentes são as desigualdades entre brancos e negros em áreas como educação, renda e trabalho. Como o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos já repetiu, por várias ocasiões, ''só quem pertence à raça dominante tem o direito (e a arrogância) de dizer que a raça não existe ou que a identidade étnica é uma invenção''.
Vale lembrar que o estímulo à imigração europeia para o Brasil fazia parte, por um lado, de uma política de branqueamento da população e, por outro, representou o processo de exclusão das pessoas negras do trabalho remunerado. O tão difundido e, igualmente, tão combatido mito da igualdade racial sobrevive ainda na mentalidade de muitos setores da sociedade londrinense e brasileira. Independentemente da desinformação do líder do governo na Câmara Municipal, tentar igualar a situação dos escravos à dos imigrantes é claramente um modo de revalorizar o mito da igualdade racial e apagar as contradições existentes entre os dois processos.
Podemos apreender uma dimensão mais bem definida do racismo, por vezes disfarçado sob a defesa da igualdade universal entre os indivíduos, sempre que alguma matéria relacionada aos negros e afrodescendentes entra na agenda política. Foi assim com as discussões sobre as cotas raciais em inúmeras universidades e mais recentemente na reforma universitária, esta ainda em andamento. É assim, mais uma vez, com o projeto em questão sobre o Dia da Consciência Negra.
Entidades da sociedade civil se revoltam contra o projeto em razão de instituir mais um feriado no município. Elas se perguntam sobre os prejuízos deixados pela colonização e pela escravidão para a população negra e afrodescendente, como os estigmas, os preconceitos, a opressão, a discriminação e a exclusão? Negros e afrodescendentes amargam o acúmulo de desvantagens econômicas e desvalorização cultural, o que contribui para a construção das identidades subalternas, bem como para a reprodução das desigualdades no Brasil. Por que nossos supostos heróis são sempre membros dos grupos dominantes, ainda que por vezes opressores? Por que Zumbi dos Palmares é menos importante que Tiradentes?
Devemos permanecer vigilantes sempre que são recuperadas estratégias ideológicas que se pretendem inclusivas quando, a bem da verdade, visam ao disfarce do racismo brasileiro. Uma sociedade democrática precisa reconhecer a existência do racismo e, ao mesmo tempo, lutar por sua eliminação. Oxalá tenhamos o reconhecimento devido ao dia 20 de novembro - data do assassinato de Zumbi dos Palmares! Uma data de luta pela igualdade racial.
SILVANA MARIANO é socióloga em Londrina


