O gran­de de­sa­fio do MST é
iden­ti­fi­car a fron­tei­ra en­tre
a mer­ca­do­ri­za­ção da ter­ra e
a re­pro­du­ção so­cial da ter­ra
que im­pli­ca em com­ba­ter a ­crise



O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) apresenta-se com algumas reivindicações pontuais: maior agilidade no assentamento de famílias, melhores condições de crédito e melhor atendimento nos serviços públicos. Reivindicações que são recursivas e repetem-se há décadas. Se tomarmos o curto período em que se consolidaram as políticas neoliberais e agora com quase dois mandatos de um governo que quer ser identificado como democrático-popular, parece que para essa população as condições objetivas pouco mudaram. Embora o governo apresente números que indicam uma intervenção mais efetiva no assentamento de famílias e um aumento na oferta de crédito, a realidade econômico-social das famílias que dependem do acesso à terra ou das que já acessaram é ainda uma realidade que desafia nossa compreensão.
É preciso entender que os sem-terra não são uma falha do sistema, mas a condição do seu funcionamento. Eles expressam a dinâmica desse sistema. Ao concentrarem suas reivindicações no acesso à terra e ao crédito, não colocam em xeque a lógica do sistema. Reafirmam-no. Enquanto, os mecanismos que regulam no sistema capitalista o acesso à terra não são superados e a dinâmica da produção agropecuária for submetida aos interesses da economia urbana e da sobredeterminação do sistema financeiro, a luta pelo acesso à terra se autoalimentará: os sem-terra produzirão sem terras.
A terra é historicamente um instrumento de dominação. E com a crise financeira o acesso à terra ganha novos limitadores. Ela voltou a constituir-se em espaço de reserva da acumulação capitalista. E quais seriam os espaços que a crise financeira pode abrir para o MST e para aqueles que estão no campo da esquerda? É daqui que se deve partir para entender os limites e as possibilidades do movimento na luta pela terra. Em período de crise econômica é a situação do mercado terreiro que imporá a possibilidade do movimento avançar. Ora, uma vez que o governo não regulamenta a economia de mercado, aceita acriticamente o papel central das finanças nos setores do agronegócio e dos assentados e ao mesmo tempo faz uso do Estado ajustando o sistema para assegurar as finanças, ele sugere portanto a importância crescente desse setor com prejuízos para os setores populares.
O desafio do MST é entender que essa crise é diferente das outras. Ela se distingue pelo fato de que a financeirização da economia precisa ser politizada. Não se pode dar por descontado o papel das finanças como mecanismo central do capitalismo. Elas sustentam relações e decisões de forças que decidem a distribuição das riquezas. É contra isso e explicitamente que o MST deve enfrentar. Positivamente, já existe no interior da sociedade uma desconfiança com o setor financeiro (devido seus calotes), isto não está muito distante de se tornar uma crítica ao capitalismo. Contudo, isto permanece à margem da discussão pública. O MST poderá antecipar essa discussão. A ausência dessa discussão evidencia os limites do funcionamento da democracia representativa. Ela sugere que a unidimensionalidade produzida pelo sistema é muito profunda.
O descontentamento com a crise ronda todo setor subalterno, pois este tem sido prejudicado por políticas anticidadãs. Ela penaliza os subalternos e consequentemente a qualidade de vida, os salários a distribuição de riqueza. Ao perdurar a situação de crise, terá efeitos negativos sobre os movimentos sociais progressistas que poderiam estar junto com o MST lutando contra a mercadorização da terra e pela apropriação para o uso popular e para a reprodução social. Este é o grande desafio do movimento dos sem terra e do urbano: identificar a fronteira entre a mercadorização da terra e a reprodução social da terra que implica em combater a crise. Ela é uma forma de retirar a mais valia do trabalho para ser incorporado ao capital.
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina

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