ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Wilmar Marçal 
No dia 13 de junho de 1993 escrevi - neste Espaço Aberto - artigo intitulado ''Legado político''. Começava citando J. G. de Araujo Jorge que afirma que ''não haverá povo feliz enquanto houver homens infelizes''. O artigo, à época, destacava a epidemia de cólera que aflorava no Brasil, correlacionando-a com a miserabilidade do povo sem saneamento básico, com péssimas condições de higiene e a contundência maléfica da corrupção. Ao final do artigo alertava para outro problema sério de saúde pública no terceiro mundo: o retorno da tuberculose.
Os anos passaram, o surto de cólera passou, a tuberculose cresceu nas áreas urbanas e rurais e o país viveu por muitos verões seguidos a temível dengue. Agora, de forma mais grave, surge a gripe A (H1N1). Essa pandemia assusta e cresce a cada dia, gerando novamente incertezas, conflitos e medo. Sobre a gripe H1N1 há muitas informações, mas a dúvida e a desinformação continuam. O Brasil enfrenta outra vez uma pandemia com a ausência de informações científicas. Quando teremos uma vacina eficiente? Por que a doença atinge jovens saudáveis?
É preciso considerar a ciência como a real aliada das nossas autoridades. Mais do que nunca é fundamental apostar na informação, como forma de conter a evolução dos casos e consequentemente reduzir filas nas unidades de saúde e os óbitos. Cientificamente falando, a mutação do vírus era prevista, pois há décadas vivemos situações semelhantes com doenças diversas, como citei no início deste artigo. Aliás trata-se de um problema crônico, que aflige o Brasil e outras nações há mais de uma década. Tudo fruto do desequilíbrio ambiental.
Nossas autoridades precisam acertar o foco, trabalhar com dados científicos e divulgá-los de forma clara para a população. O noticiário sobre a nova gripe mostra mortes, superlotação de unidades e quase nada sobre a pesquisa. Absolutamente não há comparações sobre dados nacionais e internacionais. Também não há informações sobre os resultados dos experimentos sérios.
Essa imprecisão nos deixa inseguros. É preciso evidenciar o trabalho científico. O conhecimento traz segurança, deixa de lado a velha retórica do discurso de que ''tudo está sob controle''. A partir do momento que há registro de óbito o controle da gripe H1N1 parece estar fragilizado. É aí que vejo que falta informação concreta e que o debate está desvirtuado.
A experiência da gripe H1N1 mostrou também que a população cobra respostas convincentes. Os meios de comunicação trabalham com muita rapidez. Por isso gestores tem de estar embasados, com informações científicas e respostas concretas.
A Organização Mundial da Saúde já anunciou que a nova gripe avançará também pelo próximo verão em todo o hemisfério sul. Estudos multidisciplinares, com previsões metereológicas, índices de deslocamento de pessoas, números e locais de origens, idade de susceptibilidade, novas drogas estão sendo testadas. Tudo isso precisa ser considerado quando se trata de emitir opinião e informação. Os responsáveis pela saúde pública podem repassar maior segurança a uma população que precisa, mais do que nunca, acreditar em quem as dirige.
O lamentável é reviver os mesmos temores com doenças diferentes. E constatar que o medo permanece. Esta semana a rede pública e privada de ensino retomaram as aulas. Pais obviamente permanecem amedrontados. O vírus está ou não contido? Jovens e crianças estão seguros nas salas de aula? E aí não basta opinião, é preciso dados concretos, científicos e exatos. Ainda estamos longe de primar uma informação de qualidade, baseada na atividade científica e que possa tranquilizar a população. Tudo muito semelhante ao quadro de medo que vivemos com a cólera, tuberculose e a dengue. Os anos passam e as doenças avançam. Precisamos aprender com nossos erros e ter a humildade de aceitá-los para assim nos aprimorarmos.
WILMAR MARÇAL é reitor da Universidade Estadual de Londrina


