ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de agosto de 2009
Agnaldo Kupper 
A monarquia conseguiu manter a
unidade territorial e teve um
caráter peculiar, moldando-se às
nossas características tropicais
Empreender um balanço objetivo da história republicana brasileira, inaugurada em 1889, não é tarefa simples. Da dita Proclamação da República até hoje o país tem vivido sucessivas crises institucionais: seis golpes de Estado, frequentes estados de sítio, nove eleições indiretas para presidente, cinco presidentes depostos, três presidentes eleitos e impedidos de assumir o cargo, seis constituições, um período parlamentarista, um impeachment. Após 1930, apenas quatro presidentes concluíram integralmente o mandato (com FHC possuindo dois).
Da ''res publica'', todos parecem querer tirar seu quinhão nem que seja para receber pedidos pessoais, numa espécie de mendicância dos que dão o poder àqueles que se enchem de importância e vaidade.
''Castelogate'', nepotismo, diretores do Senado, farra das passagens aéreas, auxílio-moradia, atos secretos, supersalários, contas fantasmas, Renan, Sarney, isto para ficarmos em termos e nomes recentes.
Por vezes, imagino que desejam que detestemos política para que, ao nos afastarmos do ''jogo'', fique mais fácil aos que dele se aproximam e aproveitam. Afinal, por que nossos profissionais da política procurariam tanto desgaste?
Quando do plebiscito de 1993, olhava durante um debate com certo desprezo a um defensor da monarquia parlamentarista. Talvez, porque tenhamos aprendido uma vida toda que o regime monárquico significa atraso. Certo dia, perguntei-me: por que usamos termos como ''rei do futebol'', ''rainha dos baixinhos'', ''primeira ou segunda princesa da primavera'', entre outros? Por que não - por estarmos em um regime republicano - usarmos expressões como ''presidente do futebol'' ou ''primeira-dama da criançada''? Soa ridículo, não? Mas, talvez, na monarquia os ''cabras'' tenham sido melhor tratados.
O fato é que a monarquia brasileira manteve-se por quase sete décadas em meio a tantas repúblicas da América. Pedro I não era apenas um tolo mulherengo. Pedro II era reconhecido mundialmente em seus talentos, embora tentem colocá-lo como decadente.
A monarquia conseguiu manter a unidade territorial e teve um caráter peculiar, moldando-se às nossas características tropicais. Como nos confidencia a escritora Lilia Moritz, ícones da República mais bem-sucedidos - como hino e bandeira - estão ligados à nossa experiência monárquica.
Nossos Pedros (em especial o segundo) foram preparados para o cargo, com nomes a zelar, diferentemente dos homens de nossa República que trocam os seus por condições e benefícios pessoais ou de grupos, a quem dão mais valor.
Iludi-me, por muito tempo, por projetos e fico feliz por isto. Não esqueço quando fui, no início da década de 1980, com meia dúzia de companheiros, recepcionar o agora presidente Lula na antiga Rodoviária de Londrina para a inauguração da nossa pequena sede do PT. Sinto-me, hoje, ingênuo por ter discutido asperamente com os que, para mim, não entendiam a importância de petistas no poder republicano. Mesmo quando chegou ao governo de Londrina, o Partido dos Trabalhadores perdeu-se em interesses pessoais e de facções. Rachou.
Em nossa República, cometer erros e delitos pode parecer esperteza. Sair impune pode parecer inteligente. No entanto, nossos ''homens públicos'' podem estar criando dois tipos de cidadãos: os que buscam internamente os seus valores em postura ética ou os que desistem das responsabilidades por falta de exemplos. Ao prevalecer o primeiro tipo, vigorará a solidariedade sobre o individualismo. Temo, com tantas aberrações republicanas, que o segundo está triunfando.
Meu pessimismo não significa abandono. Talvez, melhor fazer política por outros meios. Ou quem sabe, um dia, o ''sebastianismo'' se torne ''real''.
AGNALDO KUPPER é professor em Londrina


