ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Edinelson Alves 
Muitos senadores são contra
Sarney nas suas bases, mas
poucos têm coragem de usar
a tribuna para criticá-lo
Quando José Sarney foi eleito presidente do Senado, há seis meses, a chamada grande imprensa noticiou esse fato de forma trivial, como se ele não tivesse um passado altamente condenável. Mesmo o PT tendo Tião Viana como candidato do partido, Lula, temendo a CPI da Petrobras e confiando no apoio do PMDB à candidatura de Dilma Rousseff, preferiu bancar Sarney e seu grupo. Mas, a revista britânica ''The Economist'', com o senso crítico que todo veículo de comunicação deveria ter, classificou a chegada pela terceira vez do cacique maranhense à chefia do Senado como algo desastroso para o País.
''Onde os dinossauros ainda vagam'', era o título da matéria que acrescentava: ''Sarney pode parecer um regresso a uma era de políticas semifeudais que ainda prevalecem em alguns cantos do Brasil e puxam o resto dele para trás. Mas, com o apoio tácito de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente de centro-esquerda do País, ele foi escolhido para presidir o Senado''.
A publicação britânica parecia prever o estrago que Sarney e seus aliados iriam fazer no Senado: ''Esta é a terceira vez em sua carreira que ele ocupa esse cargo poderoso, que dá a ele um grau de controle sobre a agenda do governo e oportunidades para nomear funcionários públicos''.
Mas, as mazelas do Senado não foram inventadas pelo cacique maranhense. O Senado sempre foi uma espécie de ''Centro Oficial dos Privilégios Públicos'', o que não é pouca coisa em Brasília. São inúmeras vantagens, algumas historicamente legalizadas, e nem os senhores beneficiados saberiam dizer quantas são.
O ex-todo-poderoso José Sarney sangra publicamente, moralmente atingido pelos seus atos secretos (e de tantos outros senadores) que se tornaram públicos. Mesmo desmoralizado, ele tenta salvar seu feudo ameaçado.
Desde sua criação, ainda no período imperial o cargo de senador exigia idade mínima de 40 anos e rendimento anual mínimo de oitocentos mil réis. Os requisitos mudaram, mas a reserva de mercado para os pretendentes permanece, e é para poucos ser escolhido pelas respectivas cúpulas partidárias. Não é qualquer cidadão de bem que se submete a atravessar esse ''pântano político''.
Mas, os que conseguem atravessar o pântano não têm do que reclamar: o mandato é de 8 anos, regado de muitas mordomias e pouco fazer. O candidato ainda pode indicar como suplente algum parente ou mesmo presentear um financiador de campanha. Atualmente, 18 suplentes atuam efetivamente sem ter recebido sequer um voto. Exemplo clássico é o do senador pela Bahia Antonio Carlos Peixoto de Magalhães Júnior. Pela segunda vez ele assume a vaga de seu pai, Antônio Carlos Magalhães. A primeira vez quando ACM foi forçado a renunciar, e atualmente devido ao falecimento do ex-cacique baiano.
Outra mazela particular do Senado é a possibilidade da reeleição permanente, o que torna alguns políticos vitalícios naquela Casa. Com apenas uma reeleição o agraciado garante 16 anos de mandato. Dessa espécie de direito adquirido, somado aos anos de convivência nasce um espécie de compadrio suprapartidário onde todos são convidados a compartilhar o banquete das muitas benesses. É por isso que muitos senadores são contra Sarney nas suas bases, mas poucos têm coragem de usar a tribuna para criticá-lo. Eles sabem que todo telhado de vidro é frágil.
É oportuno recordar as palavras do senador Jarbas Vasconcelos, proferidas quando Sarney venceu a disputa pela presidência: ''De repente, Sarney apareceu como candidato, sem nenhum compromisso, sem nenhuma preocupação com o Senado, e se elegeu. A moralização e a renovação são incompatíveis com a figura do senador. (...) Sarney vai transformar o Senado em um grande Maranhão''.
EDINELSON ALVES é jornalista em Rolândia


