ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de agosto de 2009
Wilmar Marçal 
A pandemia
serve de alerta
e mostra que a estrutura
precisa ser mexida.
Demonstra que
é preciso agir,
sem a retórica
dos discursos
A esperança venceu o medo. Esta frase ficou famosa quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, sagrou-se vencedor nas eleições presidenciais. Longe de querer polemizar qualquer comentário ou analogia política, o fato é que a gripe A (H1N1) tem assustado a população brasileira e demonstra, de modo muito claro, que as políticas públicas no país ainda são muito frágeis.
À medida que o número de casos suspeitos e positivos são divulgados nos deparamos com uma triste realidade, com a evidência de vários gargalos que ainda recrudescem e afetam diretamente a população. Na semana passada imagens de nossas unidades públicas de saúde chamaram a atenção do país nos noticiários nacionais. Uma imagem deprimente de postos de saúde lotados, pacientes com máscaras, aguardando atendimento por horas seguidas. Crianças, jovens e idosos ''acomodados'' nos corredores.
A gripe começou demonstrando que a classe média-alta seria a mais afetada devido às viagens aéreas que facilitam a circulação do vírus. Hoje estamos é assustados com todo e qualquer transporte de massa. No Brasil o perigo ronda ônibus, metrôs e trens que vivem lotados de passageiros totalmente vulneráveis à transmissão do vírus.
Até agora nos deparamos com um esforço, representativo é verdade, de empresários sensíveis a mexer no horário do comércio, o que poderá reduzir filas nos horários de pico. Ademais, não há estudo mais profundo de condutas alternativas que possam evitar aglomerações de pessoas. Não há propostas de melhorias, nem qualquer inovação. Não há vontade política de mudar. Fato concreto ignorado por nossas autoridades é que a concentração de pessoas em momentos de pico é desumana e irracional. Neste momento concentrar pessoas é comparável a colocá-las acuadas dentro de verdadeiras jaulas coletivas.
Também é necessário rever políticas públicas referentes à educação. Sem distinção de nível, nossas escolas públicas continuam com número de alunos concentrados ao exagero. É premente haver mais escolas para se ter um número menor de alunos por sala. Isto evitaria a disseminação de enfermidades e melhoraria a relação professor/estudante, onde a informação e o comportamento pudessem ser otimizados. Foi-se o tempo que as professoras sabiam os nomes completos de seus alunos e conheciam suas mudanças comportamentais quando apresentavam uma simples febre. O mais grave é que há políticos que defendem o aumento no número de vagas, ao invés de lutar por recursos para construir novas e modernas escolas.
Por fim, talvez, a mais importante das políticas públicas está sucumbindo. O serviço de saúde é o melhor termômetro para o Brasil rever suas ações em prol da população. Há desinformação, descompasso de esclarecimento técnico e linguagens diferentes. Tudo isto demonstra despreparo profissional, empirismo e pouca credibilidade das autoridades que precisam ter segurança nas decisões. O retrato é ainda mais cruel: postos de saúde e hospitais repletos, com falta de médicos, sem rapidez no diagnóstico laboratorial e muitas vezes sem medicamentos específicos e gratuitos. Um verdadeiro caos afetando, sobretudo, os mais pobres e necessitados.
Ainda há muito que fazer. A pandemia serve de alerta e mostra que a estrutura precisa ser mexida e bem melhorada. A luz de alerta demonstra também que é preciso agir imediatamente sem a retórica hipócrita dos discursos e sem a comparação de regimes ou tendências políticas. Simplesmente fazer. Sugiro que nossos governantes e representantes vivenciem a realidade da maioria. Que experimentem o transporte coletivo, que se aproximem mais da escola pública e que possam ser submetidos a um atendimento médico na rede pública de saúde. Talvez assim nossos representantes sintam na pele e no coração a necessidade de realmente fazerem políticas públicas decentes e verdadeiras. Caso contrário, é bem possível que o medo continue vencendo a esperança.
WILMAR MARÇAL é reitor da Universidade Estadual de Londrina


