ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Dom Orlando Brandes 
O padre é um perito
nas coisas de Deus, é
a visibilidade do amor
de Deus, é o administrador
dos mistérios de Deus
Toda a Igreja será agraciada com o Ano Sacerdotal. Jesus demonstrou muito carinho pelos seus doze sacerdotes. Passou uma noite inteira rezando para escolhê-los. Escolheu os que quis (Mc 3, 13). Criou com eles um forte vínculo de amizade e discipulado. Educou-os na ótica do Evangelho. Motivou-nos a pedir ao Senhor da messe, mais operários. Despede-se do mundo com a oração sacerdotal (Jo 17).
A teologia ensina que o padre age na pessoa de Jesus, em nome da Igreja e em favor do povo. Ele é a ponte, a escada, a rota entre Deus e o povo. O padre está a serviço da nova humanidade em Cristo. É consagrado para um mundo novo, é ordenado para ordenar o mundo na ótica do amor fraterno. A história de uma vocação é uma história de amor e de salvação. Deus ama os padres porque ama seu povo. Tudo que se diz do padre é em benefício do povo. O Ano Sacerdotal é um ano do povo sacerdotal.
O padre tem obrigação de ser homem de Deus. Quem vai à farmácia quer remédio, quem vai à padaria quer pão, quem vai ao açougue quer carne, quem vai ao padre quer Deus. O padre é um perito nas coisas de Deus, é a visibilidade do amor de Deus, é o administrador dos mistérios de Deus. O sacerdócio é um mistério insondável de amor.
São Francisco de Assis dizia: ''Quero temer, honrar e amar os sacerdotes como meus senhores, pois neles está o filho de Deus. Não levo em consideração os seus pecados, porque reconheço neles o Filho de Deus e eles são os meus senhores''. Notemos que no tempo de São Francisco o clero vivia numa época de decadência. Só o amor haverá de soerguer o sacerdote ferido e caído. São João Vianney afirma que morreríamos de amor se conseguíssemos compreender o sacerdócio na terra. Só será compreendido no céu.
Santa Teresinha do Menino Jesus afirma: ''Vim para o Carmelo para rezar pelos sacerdotes''. Continua afirmando: ''Deus não chamou os que são dignos, mas os que Ele quis. É por misericórdia que Deus chama''. Toda vocação tem sua raiz na misericórdia de Deus porque somos ''vasos de argila'' carregando o mistério. O padre não é anjo nem demônio, é homem consagrado no qual Deus apostou.
Nossos padres não precisam tanto de confetes, mas de compreensão, colaboração, perdão e oração. Por outro lado, o povo quer um bom médico, um bom professor, um bom advogado, forçosamente quer ter um bom padre. Ajudemos nossos padres a serem bons e santos. Um povo sem padre decai em desumanidades. Ninguém como o padre tem o poder de anular, destruir e vencer o mal. Só o padre pode dizer: ''Eu te absolvo. És agora inocente. És nova criatura. Vai em paz''. Só o padre pode dizer ''isto é o meu corpo'' e assim acontece o maior milagre da história que ecoa por todo o universo. O padre torna Jesus nosso contemporâneo pela eucaristia.
A Igreja depende do trabalho dos presbíteros. Por isso o Concílio aponta seis qualidades do padre: bondade de coração, sinceridade, coragem, constância, cultivo da justiça e fineza. Os sacerdotes são ministros de Deus, colaboradores dos bispo, promotores dos leigos, transformadores da sociedade. O sacerdócio é sacrifício e alegria, dom e tarefa. A ovelha não produz a lã para si, a abelha não faz o mel para si, as aves não fazem o ninho para si. Assim, o padre não existe para si. Ele é de Deus e para os outros. Promove a glória de Deus e a salvação do mundo, daí a necessidade de o padre ser um especialista em Deus e um perito em humanismo.
Antes de ser consagrado, o padre é alguém humano, rodeado de fraqueza. Pelo batismo, o padre é um cristão, um discípulo, é ovelha do rebanho, ''para vós sou bispo, convosco sou cristão''. Num terceiro momento vem o sacerdócio. Que nós bispos e padres sejamos, pois, humanos, cristãos e sacerdotes.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina


