ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de julho de 2009
Francisca Verginio Soares 
As autoridades precisam
se convencer que a raiz
da violência envolvendo
esse segmento está
no tráfico de drogas
Um dos princípios básicos da pesquisa sociológica, principalmente a que trabalha com dados, é o cuidado que se deve ter quanto a sua veracidade e credibilidade. Estes dois fatores dificilmente poderão ser refutados em relação aos resultados da pesquisa apresentada no último dia 21, pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre a situação de abandono do segmento infanto-juvenil do Brasil. Segundo a pesquisa, nos próximos sete anos, 33 mil jovens entre 12 e 18 anos poderão morrer assassinados nos 267 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes. Mostra ainda que, nessas cidades, a cada mil adolescentes de 12 anos dois devem morrer de forma violenta antes de chegar aos 18.
Esse índice, no entanto, aumenta quando se analisa as 20 cidades com maiores taxas de mortalidade jovem no País. Em primeiro lugar aparece Foz do Iguaçu, em que 9,7 a cada mil jovens de 12 anos devem morrer antes dos 18. Em segundo lugar está Governador Valadares (MG), com 8,5 por mil. Londrina aparece na 60 posição das cidades com o maior número de jovens assassinados no Brasil. A média de adolescentes entre 12 e 18 anos assassinados é de 3,01 para cada grupo de mil habitantes. Londrina supera a média nacional, que é de 2,03 para cada mil.
Entre as capitais, Maceió (AL) aparece em 9º lugar, com 6 por mil, seguida por Recife (PE), com a mesma taxa. No entanto, à capital pernambucana se somam cidades da sua região metropolitana, como Olinda (4 colocação) e Jaboatão dos Guararapes (8). São Paulo aparece apenas na 151 posição e é a 24 entre as capitais. Indicou ainda a pesquisa que o perfil desse jovem que morre assassinado é negro, de baixa escolaridade, morador de área carente. Um jovem negro tem 2,6 vezes mais chances de morrer assassinado que um branco; um homem adolescente, 12 vezes mais chances que uma menina. A situação é gravíssima, exige medidas drásticas para enfrentar um problema trágico que já está se tornando crônico: a entrada de jovens cada vez mais cedo no mundo do crime.
Pesquisa que realizei com adolescentes, entre 12 e 19 anos, que cumpriam medidas sociocoeducativas no Cense I, apontava: 12 anos, 3,3%; 13 anos, 6,6%; 14 anos, 16,15%; 15 anos, 28,25%; 16 anos, 22,21%; 17 anos, 26,24%; 18 anos 7,7% e 19 anos 1,1%. Desses, 58,54% tinham alguma ocupação; enquanto 44,41% disseram que nada faziam. Porém, tais ocupações em nada os atraíam, principalmente devido ao retorno econômico. Entre as atividades, a reciclagem foi a mais citada, com 14,24%; ajudante de pedreiro 8,14%; jardinagem 5,8%; catador de papel 4,4%; lavador de carro, mecânico, serviços gerais e atividades rurais 3,5%; e com menores índices ficaram as atividades de entregador, pintor, tapeceiro, funileiro, engraxate, entre outras. São atividades que não requerem nenhuma formação já que é baixíssima a escolaridade dos mesmos.
O resultado de minha pesquisa endossa o que diz a pesquisa do Unicef: os adolescentes, em sua maioria, são muito pobres, de baixa escolaridade, sem emprego ou quando tem são muito precários, suas famílias são vulneráveis, tendo inclusive pessoas da família com história de envolvimento com o crime. O que eles querem? O que todo adolescente, independente de classe social, quer: ter dinheiro, andar na moda, usufruir dos bens materiais comuns a todos, pelo menos do ponto de vista das propagandas e marketing.
As autoridades precisam se convencer que a raiz da violência envolvendo esse segmento está no tráfico de drogas e é neste campo que deve haver o combate. Além de oportunizar aos jovens mecanismos de inclusão social pela via da educação e não somente através do ''vale tudo'', é preciso outras ações combinadas. E me parece urgente uma política pragmática combinando as seguintes medidas: repressão, controle das fronteiras, redução das armas disponíveis; mudanças na lei referente às drogas. O Estado precisa urgentemente investir suas forças para tentar evitar que a profecia anunciada pelo Unicef se concretize. Esse, sem dúvida, é o pacto que possibilitará a integração da juventude pobre à cidadania e aos direitos humanos.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é doutora em Ciências Sociais em Londrina e presidente do Observatório Social Londrinense de Estudos da Violência, Conflito e Segurança Pública (Obsocil)


