O al­coo­lis­mo, o ta­ba­co,
as doen­ças da po­bre­za e
a vio­lên­cia ur­ba­na ain­da
ma­tam ­mais que qual­quer um
des­tes ví­rus-­armagedons




O ''homem civilizado'' vive a síndrome do medo da destruição global. Morremos de medo de tudo quando a Natureza é que deveria morrer de medo de nós. É esse irresistível instinto destruidor do homem civilizado que faz com que ele esteja permanentemente de prontidão ao primeiro sinal de que poderá ser destruído pela Natureza - vingança plenamente justificável. Nenhum homem primitivo - como nossos índios, por exemplo, e aqui me refiro ao índio no seu estado selvagem - jamais maculou a Natureza com o nível de destruição de que somos capazes, e sempre nos justificando. Os europeus transformaram suas florestas em carvão para manter vivos os fornos da revolução industrial que alimentava o capitalismo selvagem embrionário. Insatisfeitos, lotearam o planeta entre eles e passaram a sugar todo o potencial natural dos países neocolonizados, como os da África, Oriente Médio, Índia e China. Levaram tudo e legaram como se fosse uma dádiva a ''independência'' àquelas nações que jamais conseguiriam recuperar-se moral e economicamente.
O homem incivilizado caminhou pelas florestas do mundo junto com outros animais sem jamais destruí-la. Incontáveis espécies de animais comem, bebem, produzem lixo, urinam e defecam, mas em qualquer floresta pode-se caminhar sem perceber sinal de poluição. No entanto, todos os ecossistemas da Terra que receberam a ''visita'' do ''homem civilizado'' em pouco tempo viram-se devastados, seus rios assoreados e entupidos de agrotóxicos. Árvores substituídas por chaminés e o ar apodrecido por toneladas de dióxido de carbono e derivados sulfúricos, provocando chuva ácida. As palavras de La Rochelle (1893-1945) ressoam assustadoras neste nosso ''mundo civilizado'': ''A civilização extrema gera a barbárie extrema''.
Esse remorso coletivo afeta o homem civilizado porque ele tem consciência do mal que faz à Natureza, mas não consegue dominar seu instinto destruidor. Assim como os pecados no passado medieval atraíam a fúria divina, de acordo com proféticas e apocalípticas escrituras, hoje o enorme peso da consciência coletiva faz nascerem as neuroses de destruição total. Nos anos 1960/70 o mundo foi invadido por levas de naves alienígenas, o que rendeu a pilantras verdadeiras fortunas com seus livrecos mentirosos; no final do século a doença da vaca louca gerou pânico na Inglaterra e no mundo e, no fim, ninguém morreu; no Ano Novo (1999-2000) haveria um bloqueio em todos os computadores do mundo gerando um caos absoluto: o ''bug'' do milênio. Não aconteceu nada! A gripe do frango, segundo os catastrofistas de plantão, mataria milhões de pessoas, mas a ''pandemia'' não chegou a 200 vítimas fatais; a catástrofe da hora é a ''gripe A'' que se espalha pelo mundo e que deverá matar milhões de pessoas - mentira! Não será diferente da gripe aviária.
A mais nova estupidez generalizada sobre o fim do mundo, é o alinhamento do sol com o centro da galáxia, o que deverá ocorrer em 2012, e que teria sido previsto no antigo calendário maia - a histeria coletiva já começou: há o filme ''2012'', o documentário do History Channel e - pasmem! - uma loja ''oficial'' para comercializar produtos ''2012'' já foi inaugurada. Este será, com certeza, o último ano de nossas vidas! Do ponto de vista da ciência, porém, o alcoolismo, o tabaco, as doenças da pobreza e a violência urbana ainda matam infinitamente mais que qualquer um destes vírus-armagedons.
Curiosamente, catástrofes reais parecem não perturbar a mente de milhões de pessoas. Nos últimos 20 anos, o Brasil perdeu 2,2 milhões de vidas em acidentes (armas de fogo e trânsito), ou seja: 110 mil mortos por ano, 9.166 por mês ou 305 por dia! Isso é uma catástrofe e poderia ter sido evitada. Doenças da pobreza e do descaso das autoridades produzem milhares de vítimas todos os anos no Brasil, mas parece que poucos se importam. Afinal, isso não aparece na mídia, não dispara campanhas solidárias com artistas globais, não gera documentários e não produz filmes.

PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e historiador em Londrina

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