O PG1 se­le­cio­na­do
em Pon­ta Gros­sa
in­se­riu-se no
co­ti­dia­no agrí­co­la,
eco­nô­mi­co e ali­men­tar
do ­brasileiro



A cidade de Ponta Grossa abriga dois dos mais antigos órgãos de pesquisa agropecuária do País, subordinados ao Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) desde 1978: a fazenda-modelo (criada em 1912) e o campo de trigo (de 1921), atual polo regional de pesquisas, objeto do presente artigo.
Há mais de três décadas várias unidades do Iapar dedicam-se à pesquisa agropecuária. Em uma delas, o polo regional de Ponta Grossa, foram realizados alguns dos primeiros trabalhos na área. Afinal, foi ali que se instalou em 1921 o campo de trigo, então subordinado ao Ministério da Agricultura.
No período, a produção do trigo no país era reduzidíssima, impondo onerosas importações. Situação que se arrastava pelo menos desde o início do século XIX devido ao aparecimento da ferrugem amarela ou linear - doença causada pelo fungo Puccinia striiformis que passou a afetar os trigais brasileiros lá pelos idos de 1811.
É nesse contexto no qual se insere a criação do campo de trigo, produzindo algumas das primeiras pesquisas empreendidas em solo nacional. Essas, desde seus primeiros tempos, evidenciavam variados objetivos: 1) o reconhecimento das variedades de trigo mais adequadas à realidade do país e/ou o desenvolvimento de novas pela seleção ou cruzamento; 2) a produção de estudos sobre fertilidade do solo, com adubação verde, orgânica e fertilizantes químicos; 3) estudos sobre a viabilidade da mecanização agrícola; 4) serviços de meteorologia; 5) análises de solos, entre outros.
Além do foco no trigo, a unidade visava o desenvolvimento de culturas de centeio, aveia, cevada, alfafa, linho, feijão, arroz, milho, batata, plantas frutíferas e o plantio e distribuição de mudas de essências florestais. Trabalhos que enfrentando carências financeiras, materiais e humanas eram pela primeira vez realizados no Brasil.
No seu primeiro ano de funcionamento o campo de trigo registrou a entrada de 267 diferentes variedades daquele cereal. Em 1922, elas já somavam 303, quando foram plantados canteiros com 162 variedades. Quase todas foram eliminadas logo após os primeiros experimentos evidenciarem sua não adaptação ao plantio nas áreas pretendidas.
Tais resultados indicavam que a importação não resolveria o problema. Constatação reforçada quando, ainda em 1922, começaram os estudos em torno do trigo Polysu, variedade que era cultivada nas proximidades de Porto Alegre. Esse, após a seleção empreendida na unidade, revelou que além da resistência à ferrugem também não era afetado pela acidez dos solos pouco férteis dos Campos Gerais, entre outras características favoráveis.
Dificilmente se poderia imaginar hoje a euforia que deve ter acompanhado aqueles primeiros resultados, ou seja, a apresentação da primeira variedade de trigo desenvolvida no Brasil. Resultados que não apenas evidenciaram definitivamente a viabilidade do cultivo do trigo no país, como, não menos, sua capacidade de produção de conhecimentos agronômicos amparados na observação e experimentação.
O fato é que, embora desde o final da década de 1950 a variedade não seja mais cultivada, foi a partir do Polysu - ou PG1 como foi rebatizado - que teve início o melhoramento genético de parte considerável do trigo cultivado em solo nacional. Por isso, embora o fato seja desconhecido da maioria da população, o PG1 selecionado em Ponta Grossa inseriu-se praticamente invisível no cotidiano agrícola, econômico e alimentar do brasileiro na forma das variedades que dele resultaram e ainda hoje são produzidas.

MARCO ANTONIO STANCIK é doutor em História pela Universidade Federal do Paraná e profissonal em ciência e tecnologia do Iapar, polo regional de Ponta Grossa

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