O es­sen­cial é que te­mos
po­lí­ti­cas que com­bi­nam a
es­ta­bi­li­da­de com a in­du­ção
do cres­ci­men­to ­econômico




O Plano Real desempenhou um papel muito importante para a reorganização da economia brasileira. É justo que se comemorem os 15 anos de seu lançamento, portanto, nesta primeira semana de julho. Ele deu início ao processo que permitiu recuperar a credibilidade da moeda brasileira, após uma década de erosão contínua que estava conduzindo a economia à hiperinflação. Foi um programa extremamente bem sucedido no combate à inflação e nesse aspecto ele superou os melhores aplicados no mundo como o argentino, o mexicano e o israelense.

O Plano Real, imaginado por um grupo de competentes economistas brasileiros foi manobrado com extrema maestria pela equipe de governo do presidente Itamar Franco, conseguindo convencer a sociedade que o dragão da inflação podia ser controlado e que era possível voltar a viver num regime de estabilidade monetária. No governo seguinte, do presidente Fernando Henrique, o Real se consolidou e a economia atravessou um longo período de relativa estabilidade.

Infelizmente, apesar do fulminante sucesso no combate à inflação, não houve o acompanhamento da política fiscal que era recomendada no próprio programa de estabilização, o que foi fator fundamental para as dificuldades que impediram a retomada do crescimento econômico. A insistência do uso da política cambial como a âncora principal para segurar a inflação levou à elevação das taxas de juros internas a níveis muito superiores às do mercado mundial e à supervalorização do Real. Isso resultou na queda das exportações e em toda sorte de obstáculos ao crescimento dos setores produtivos em nossa economia, enquanto estimulava investimentos externos voltados para a especulação de curto prazo nos mercados financeiros. Ao término do primeiro mandato do governo FHC o país acumulava um robusto déficit externo que obrigou a fazer vultosos empréstimos ao FMI que só foram resgatados no final do primeiro mandato do presidente Lula.

A estabilidade se manteve, contudo. A inflação só voltou a ameaçar no final do segundo mandato de FHC devido à excitação eleitoral. Foi combatida com eficiência nos primeiros meses do novo governo e a partir de então ficou demonstrado que a sociedade se acostumou com a nova realidade de uma moeda que recuperou a credibilidade e que não se conforma com o retorno da inflação.

O essencial hoje, da herança do Plano Real, é que temos políticas que combinam a estabilidade com a indução do crescimento econômico. A boa condução dessa política foi testada e se saiu bem até agora no confronto com a infeliz e desnecessária crise financeira que importamos. Minha confiança é ainda maior quando verificamos que, por conta do pré-sal, o Brasil adquiriu as condições para garantir a oferta de energia e de evitar crises de pagamentos externos que sempre interromperam o nosso desenvolvimento. É isso que me permite acreditar que temos pela frente 25 anos de crescimento robusto e sustentado, o espaço de uma geração, pelo menos. Basta usar adequadamente nossa inteligência e evitar grandes equívocos.

Passado o período de rescaldo que sobrou do incêndio financeiro, logo nossa economia terá condições de retomar seu dinamismo e voltar a crescer como antes da crise. Não podemos esquecer que o PIB brasileiro cresceu a taxas extremamente robustas neste segundo mandato do presidente Lula, acima de 5% ao ano. Em outubro do ano passado, terminado o terceiro trimestre do ano, o Brasil crescia 6,8% anuais, o quarto melhor resultado dentre os chamados países emergentes, China em primeiro. Tivemos dois trimestres de crescimento negativo, mas a economia começou a reagir em abril e não tenho dúvida que o segundo semestre do ano será de crescimento positivo que vai contiuar e acelerar em 2010.

ANTONIO DELFIM NETTO é professor Emérito da FEA/USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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