ESPAÇO ABERTO
Depois da tempestade vem a gripe
Nelio Roberto dos Reis
O Ministério da Saúde está mentindo quando diz que o Brasil está no controle da gripe A (H1N1) e que tem condições de cuidar dos seus infectados por este vírus. Também não é verdadeiro quando diz que a vacina está em fase final de desenvolvimento. Faltam muitos meses para que isso aconteça e não será neste inverno.
O fato de o Ministério da Saúde lamentar profundamente a morte de um jovem de 29 anos pela nova gripe cheira hipocrisia. Mal conseguimos cuidar da dengue no nosso quintal e, mesmo no inverno, Maringá já registrou inúmeros casos e o índice de mortalidade por dengue hemorrágica registrado no Rio de Janeiro está 20 vezes maior do que aquele tolerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
É claro que os profissionais de saúde estão alarmados porque não são ministros e sabem que o vírus pode receber variações e ainda não temos vacinas para combatê-lo. Além do que esses profissionais têm conhecimento que, até agora, a chamada gripe A atingiu a classe média que viaja, se alimenta bem e tem recursos, mas quando chegar à periferia das grandes cidades onde existem pessoas carentes com alimentação precária, a doença vai ser mais contundente.
No entanto, mesmo que haja mais mortes decorrentes da gripe A, dificilmente o número de mortos chegará aos 250 mil/500 mil mortes anuais decorrentes na gripe comum em todo o planeta. Cerca de oito em cada dez mortos tem mais de 65 anos.
Não precisamos e nem devemos culpar os viajantes de outros países, pois essa doença já tem o status de pandemia e não temos como evitá-la. Imagine-se em um ônibus com as janelas fechadas com ar-condicionado e um infectado: em uma semana a maioria dos ocupantes do ônibus estarão com tosse, falta de energia, febre, dor de cabeça, alguns com náuseas, diarréia e vômitos. Mesmo assim, somente cinco pessoas em mil terão sintomas mais severos e preocupantes que as levarão a óbito.
Qualquer epidemia como a gripe A ou a gripe comum pode ser perigosa para o homem e pode levar à morte. Mas fiquem sabendo que não estamos nem de perto, como querem nos apresentar alguns, frente a um vírus como o da gripe espanhola que vitimou mais de 50 milhões de pessoas em 18 meses. Ou ao vírus da dengue que segundo a OMS estima mais de 50 milhões de casos, resultando em 500 mil internações e 20 mil mortes em mais de cem países. Nem ao vírus da varíola (erradicada do Brasil em 1970) e que até hoje não possui tratamento nem cura. Nem a outros, como o vírus ebola com altíssima mortalidade, da Aids ou da febre hemorrágica. Não chega também aos pés do sarampo que em 1999 matou cerca de 900 mil pessoas e ainda preocupa.
Embora essa gripe não seja tão mortal como está sendo apresentada, preparem-se: o Ministério da Saúde não tem essa estrutura que mostra na mídia para combatê-la. A hora que você pegar a gripe vai ser você e Deus, para quem acredita.
Apesar de tantas coisas, o Brasil continuará vivo. Temos outros problemas maiores dos quais tentam nos desviar a atenção com tantas gripes que nos colocam no caminho que trilhamos. É preciso ter força para sobreviver neste país de coragem. O lado bom é que esse é o único vírus que meu computador não tem, mas não tenho lá tanta certeza. Como bem lembrado em uma frase de caminhão, preparam-se: ''Depois da tempestade vem a gripe''.
NELIO ROBERTO DOS REIS é doutor em Ciências e professor na Universidade Estadual de Londrina





