Devemos pensar também em maneiras de ordenar as cores da cidade que fatalmente deverão emergir


Quem visita São Paulo, hoje, dois anos e meio após a implantação do projeto de controle da poluição visual chamado ''Cidade Limpa'', não mais encontrará placas e letreiros em profusão.
Um observador atento perceberá três situações básicas: 1- O aparecimento de fachadas de edificações significativas com novos letreiros de bom design; 2- A exposição de fachadas sem graça de edifícios caixote; e 3- Construções pintadas inteiramente em cores berrantes.
Talvez estejamos assistindo a uma fase intermediária do projeto. Porém, uma rápida incursão pelo centro histórico e bairros tradicionais como a Vila Mariana nos permite concluir que a poluição visual resultante das placas e letreiros foi substituída, em grande parte, por um triste cenário de construções cinzentas escancaradas e uma nova poluição, desta vez cromática.
As cores saturadas utilizadas têm resultado, via de regra, em choque visual. Edificações lilás ao lado de bordô beterraba, avizinhada por outras amarelo manga e verde limão, chapadas ou listradas. A quitanda visual em que gradativamente a cidade de São Paulo vem se transformando mostra o risco de intervenções dessa natureza.
Louvado por muitos, o projeto de impacto Cidade Limpa Londrina merece alguns cuidados. A visão romantizada de que a ''despoluição visual'' irá revelar e preservar as edificações antigas deve ser abandonada. Para tal, seria mais certeiro aprovar a Lei de Preservação do Patrimônio em discussão desde 2003. A maior parte das edificações do centro histórico já foi transformada em barracões de uma parede e três portas.
Uma foto da inauguração das Casas Pernambucanas em Londrina, em 1935, mostra uma fachada coberta de letreiros. Se analisada de acordo com o enfoque da nova lei, a ''filha de Londres'' já teria nascido poluída visualmente.
Na verdade, encontramos na cidade um número reduzido de ruas com grande quantidade de letreiros e placas. E a densidade de propagandas é, ainda assim, sensivelmente menor do que nas ruas de São Paulo. O que agora está sendo chamado de poluição visual pode ser interpretado também como símbolo de animação, vitalidade e atratividade. Ficamos entusiasmados quando vemos a profusão de letreiros e neons em lugares como a Times Square, em Nova York, e Akihabara, em Tóquio, para citar alguns exemplos. Criam atmosferas.
Assim, a variedade e diversidade de placas e letreiros, desde que não extremamente ostensiva e não interfira na segurança do pedestre, não deveria ser controlada com rigidez.
Incomoda sobremaneira a ideia de padronização em estilo shopping. Em São Paulo foram criadas, posteriormente, algumas zonas de exceção. Se ainda assim pretendemos levar adiante o projeto Cidade Limpa, devemos pensar também em maneiras de ordenar as cores da cidade que fatalmente deverão emergir. Ruas cinzas, ruas verdes, ruas azuis, ruas rosas, ruas carnavais ou ruas arco-íris, como definir a composição e complementaridade das cores de ruas comerciais em Londrina?
É unânime a necessidade de proibição de outdoors ao longo de vias de acesso e de visibilidade a espaços públicos, praças, fundos de vale e lagos. A melhoria da qualidade integral do espaço urbano deveria incluir a redução drástica de propaganda no mobiliário oficial: de totens a lixeiras.
A questão do excesso de informações visuais parece ser, em grande parte, cultural. Construir uma cidade verdadeiramente limpa é tarefa cirúrgica, de detalhes, árdua e necessariamente contínua.

HUMBERTO YAMAKI é docente de pós-graduação em Geografia e do curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Estadual de Londrina

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