Em defesa do médico
Desiré Callegari e Renato Françoso


O primeiro semestre de 2009 teve momentos importantes para o futuro da Medicina e da saúde do Brasil. Defensores determinados de um sistema de saúde integral, universal e de qualidade para todos os cidadãos, médicos de todo o País buscaram um nível de organização superior para lutar por valorização, dignidade profissional e assistência de excelência aos pacientes. Diversas manifestações tomaram conta do País. No Norte, no Nordeste e no interior de São Paulo houve paralisações pontuais, sempre garantindo-se uma estrutura básica para o atendimento da população. Na capital paulista, centenas de profissionais tomaram a avenida Paulista no movimento Pró-SUS.
Entre as reivindicações comuns, a inclusão da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos no sistema público, para possibilitar uma cobertura adequada aos usuários, um plano de carreira, cargos e salários para os médicos, além do salário mínimo de R$ 8.239,24 para 20 horas de trabalho semanais.
São pleitos justíssimos. Hoje os médicos pagam alto preço pelas falhas de gestão e carência de financiamento. O resultado é que são obrigados a trabalhar em diversos locais, contabilizando jornadas desumanas de até 80 horas semanais. Óbvio que isso tem reflexos no atendimento. Para fazer um salário decente, o médico pula de um trabalho para o outro e tem dificuldades de assegurar o tempo que julga adequado à boa assistência. Também chega a níveis de estresse recordes e se acaba física e psicologicamente. Por amor à Medicina e pelo compromisso com o paciente, ele tira do próprio bolso recursos consideráveis para arcar com a necessária educação científica permanente, ficando atualizado e em condições de prestar uma assistência de qualidade.
É necessário e urgente que essa situação se altere. Temos todos de sair em defesa dos médicos e em apoio às bandeiras que empunham, pois são em benefício da população. Um país só é grande de fato quando olha para a saúde de seu povo com o carinho e o respeito que ela merece.
DESIRÉ CALLEGARI e RENATO FRANÇOSO são diretores da Associação Paulista de Medicina

Generoso retorno
Antonio Delfim Netto


Não existe explicação simples para a supervalorização do Real. Estamos vivendo de novo essa discussão que divide os economistas brasileiros. Um bom número acha que é natural esta valorização de nossa moeda como um espelho da desvalorização do dólar americano. Essa é - na minha ótica pelo menos - uma parte pequena da explicação. É evidente que deveria haver uma valorização do Real, mas para medir melhor isso é preciso comparar a variação do dólar com uma cesta de moedas. E quando se faz isso, verifica-se que o Real se valorizou muito mais do que as demais moedas. É uma supervalorização que influi negativamente na capacidade de competição dos produtos de exportação brasileiros. Creio que para a classe dos economistas não existe problema mais vexatório do que discutir o câmbio. Há muita dificuldade em explicar a formação da taxa de câmbio, daí a limitação do debate. O Banco Central insiste na defesa que existe liberdade de câmbio e que, portanto, a formação da taxa depende da oferta e procura. Isso até é verdade mas o problema é que a oferta e procura é que não são livres.
Há algumas coisas um pouco mais complicadas, no entanto, que permitem explicar uma parte importante da supervalorização do Real, na medida em que o Brasil é o país que mantém um diferencial de juros que dá os mais altos ganhos de curto prazo aos investimentos externos. Para dar apenas um exemplo, a taxa de retorno de um investimento estrangeiro em nosso mercado financeiro nos últimos cinco meses foi de 5% ao mês (líquidos). É fácil medir a dimensão dos ganhos proporcionados pelo diferencial dos juros interno e externo quando se sabe que a taxa de juros é de 2% ao ano, no mercado americano.
Menos fácil é concordar com o teimoso conservadorismo do BC que se nega a acelerar a queda das taxas de juro, que já poderia ter alcançado níveis civilizados desde o último trimestre do ano passado. Ao manter um patamar alto de juros, desnecessariamente, deixou de contribuir para sustentar o nível da atividade econômica, desestimulando os investimentos produtivos.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP e ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

Os artigos devem ter, no máximo, 60 linhas e mínimo de 30 linhas. Os artigos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do jornal. [email protected].

mockup