ESPAÇO ABERTO
Deputados: a culpa é dos outros
Ariovaldo O. Santos
Ainda que as transformações no Brasil sejam extremamente lentas, a cada vez que se abre a página envolvendo os políticos sobrevém a célebre passagem de poema de Bertolt Brecht: As pessoas me dizem que tudo vai mudar, e eu me pergunto: quando?. Esta é a sensação que mais uma vez fica quando se observa a matéria 18 deputados estaduais têm notificação de suspensão da CNH (Política, pág. 4, 24/05). Tendo por estopim a morte de dois jovens, em Curitiba, cujo carro foi destroçado por um deputado estadual que, segundo informações divulgadas pela imprensa, estaria embriagado e com mais de 120 pontos na CNH, os novos dados levantados pela FOLHA alimentam duas constatações.
Primeiro, a de que os detentores de cargos parlamentares usam do foro privilegiado para abusar e violar, inclusive, dos limites da lei de trânsito, justificando suas multas com o argumento de que estavam trabalhando em prol do bem público, mesmo diante do fato de que o excesso de multas revela o próprio desrespeito às leis.
Segundo, assim como não se verificou, nas declarações do pai do deputado que vitimou dois jovens, uma repreensão efetiva ao fato de que o filho estava com mais de 120 pontos na CNH, além de provavelmente estar dirigindo embriagado (será que isto também faz parte da função pública?), deputados consultados sobre seus pontos na CNH se eximem da culpa, atribuindo o fato a assessores. Se retiram de si próprios a responsabilidade pelo que ocorre, o que esperar de um parlamentar deste calibre. Pior: evidencia-se que a impunidade encontra seus adeptos nos assessores, pois se o volume de multas prolifera é porque se sentem protegidos ou então se comprazem em ser parte subalterna daquilo que Clovis Rossi, arguto jornalista, chama de uma nova casta. No trágico evento em Curitiba, assim como nos desdobramentos do fato, fica evidente como nossa tradição colonial persiste, aliada ao desprezo pela opinião pública, já anunciada pelo deputado Sergio Moraes, em Brasília. Fatos alimentados continuamente pela indiferença coletiva que, salvo raras exceções, só ocupam as ruas para gritar o nome do seu time que foi campeão estadual ou brasileiro.
ARIOVALDO O. SANTOS é professor do departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina
Amazônia sustentável
Sirlei Bennemann
No dia 13 de maio foi realizado no Senado uma vigília e discussão em forma de alerta sobre o que está acontecendo na Amazônia. Avaliei como fantástica a mobilização de alguns artistas (Cristiane Torloni coordenando, mais Vitor Fasano e Marcos Palmeira, entre os principais) com sensibilidade e consciência de seu papel como cidadãos brasileiros. Todos nós deveríamos atingir essa consciência para termos uma cultura própria e não continuarmos fazendo o que os europeus fizeram quando descobriram e colonizaram nosso território: explorar os recursos naturais. O evento foi também fantástico, pois juntos estavam pesquisadores reconhecidos internacionalmente e alguns poucos senadores.
Todas as falas naquele momento de vigília, tanto de ambientalistas como de artistas e pesquisadores especialistas em clima foram no sentido que o Planeta está no limite, não há mais nada que se esteja fazendo no sentido de manter ecossistemas de maneira sustentável. A Amazônia reconhecidamente tem uma importância enorme para continuar mantendo os serviços ambientais na questão do clima, não só do Brasil. No entanto, mesmo sabendo disso, estamos vendo as mudanças catastróficas no clima. Isto está acontecendo porque estamos retirando os recursos naturais e, como consequência, retirando os serviços ambientais (naturais) da Amazônia.
Todas as autoridades e os representantes dos governos estadual e federal já sabem de tudo isso, e a palavra sustentável é falada por todos, mas com certeza não entendida. Se assim fosse, não precisaria vigília, artistas bonitos, mobilização popular, nem mesmo sacrificar os poucos senadores que participaram da Vigília pela Amazônia até algumas horas da madrugada. Uma única frase de quem sabe e tem experiência do assunto, como o destacado pesquisador Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, resume a questão: Estamos no limite. Precisamos de uma ação gigantesca para parar o que viemos fazendo, senão em poucos anos estaremos vivendo a destruição, e não uma ameaça: precisamos manter o que dá suporte à vida.
SIRLEI BENNEMANN é doutora em Ecologia e Recursos Naturais e professora na Universidade Estadual de Londrina





