ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de maio de 2009
Antonio Delfim Netto 
O Banco Central passou mensagens confusas ao setor e perdeu a oportunidade de eliminar essa teratologia que faz o Brasil manter a maior taxa de juros do mundo
Assim que baixar a poeira dessa crise de confiança que paralisou os mercados financeiros nas economias desenvolvidas desde setembro de 2008 e interrompeu o circuito econômico mundial vai ser possível avaliar com um pouco menos de paixão as atitudes dos líderes políticos que agiram com a frieza necessária para esvaziar o pânico que já se apossava dos cidadãos.
Dos que estavam no poder no momento do apagão, o Chanceler Brown, da Grã-Bretanha, desempenhou papel decisivo movendo o peso do Estado para desinfetar o sistema financeiro inglês e assumir o comando das operações bancárias, evitando a quebradeira generalizada.
Nos Estados Unidos, onde tudo começou, não se podia esperar quase nada da administração que apenas parecia cumprir as últimas semanas do plantão. Barack Obama assumiu levando ao assustado cidadão americano uma mensagem inteligente e pragmática, pedindo tempo para o acerto de contas com os vigaristas que infectaram o sistema.
Paralelamente fez um caloroso apelo à solidariedade de sua gente para não deixar que o contágio da patifaria financeira estrangulasse o sistema de produção de bens e os volumes de emprego. Um sistema cuja saúde dependeria cada vez mais da propensão a consumir dos próprios trabalhadores ameaçados de perder os empregos.
Apesar do ceticismo de muitos, a mensagem ''colou'' como se diz nas infovias. Obviamente que ela não era (e não é) suficiente para impedir o crescimento do desemprego, consequência da violenta restrição do crédito à produção e à perda de confiança dos investidores, mas certamente está ajudando a reduzir as dimensões da tragédia. O consumo caiu menos do que se esperava enquanto a nova equipe econômica procura chegar ao núcleo do problema valendo-se dos testes de stress aplicados ao sistema bancário.
No Brasil, os impactos iniciais do cataclisma financeiro foram melhor aparados do que na maioria dos demais mercados, graças à boa regulação do sistema bancário. Há dez anos, o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer) fez um bom serviço e a partir de então funcionou a fiscalização do Banco Central (BC): nosso sistema bancário mostrou que é realmente hígido.
Tem razão o ex-presidente do BC Armínio Fraga quando disse que a experiência brasileira representou o maior teste de estresse já conhecido na vigência de um sistema de metas de inflação. Infelizmente, o Banco Central não soube tirar proveito dessa condição excepcional no período pós-crise. Passou mensagens confusas ao setor e perdeu a oportunidade de eliminar essa teratologia que faz o Brasil manter a maior taxa de juros do mundo.
O que funcionou no Brasil efetivamente na hora do pânico foi a liderança política. De uma forma insuspeitada para muitos, antes dos líderes mundiais (inclusive dos ativos chineses e de Obama, que ainda não estava a serviço), o presidente Lula intuiu que o Brasil só evitaria o contágio da crise se conseguisse neutralizar no cidadão o medo de consumir hoje, por temer o desemprego, amanhã. Com a capacidade que ele tem de falar ao povo, a mensagem (''se você não comprar hoje porque está com medo de perder o emprego, pode estar certo que seu emprego vai sumir amanhã...'') está produzindo o efeito desejado.
A desoneração dos impostos, a ampliação dos prazos de arrecadação tributária, o esforço de recuperação das linhas de crédito ao consumidor estão fazendo a sua parte. Mas não tenho dúvida que foi a ação política o fator decisivo que minimizou os efeitos da crise na economia.
ANTONIO DELFIM NETTO é professor emérito da FEA/USP e ex-Ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento


