ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de maio de 2009
Clovis Eduardo Zanetti 
A estrutura hospitalar
é ativamente oferecida
para que o paciente e
sua família possam
servir-se como um suporte
Este ano dois importantes eventos discutirão a psicologia hospitalar no Brasil e nas Américas. O primeiro deles, o 5º Congresso Interamericano de Psicologia da Saúde, organizado pela Divisão de Psicologia do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, terá como tema: ''Psicanálise aplicada à terapêutica no hospital: resultados''. O segundo, 7º Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, com o tema: ''Psicologia Hospitalar: da construção do conhecimento ao reconhecimento de uma especialidade'', promovido pela Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, também contará com a realização da prova de título de especialista concedido pelo Conselho Federal de Psicologia.
Diante da importância científica e social desses eventos e a crescente demanda de atendimentos psicológicos no hospital, cabe um esclarecimento público. O Brasil é considerado um dos pioneiros mundiais na construção desta especialidade. Uma área de atuação que agrega conhecimentos da Ciência Psicológica e da Psicologia Clínica para aplicá-los a situações especiais que envolvem os processos doença-internação-tratamento numa relação complexa e delicada entre paciente, família e equipe. Trata-se de um contexto em que a multiplicidade de situações e agentes envolvidos exige constante questionamento ético e metodológico.
A modalidade clínica do psicólogo hospitalar como profissional de ligação vem responder a necessidade de articulação num contexto clínico ampliado. Esse profissional é responsável por atuar em conjunto e no dia a dia das diversas equipes, servindo de mediador no acolhimento e na capacitação de pacientes e acompanhantes a participarem dos tratamentos oferecidos. Desde a entrada pelo grupo de visitantes, passando para uma abordagem mais específica, visando o cuidado do cuidador, diante de uma situação terminal do paciente, até os pré-operatórios e a mobilização da equipe médica, a psicologia hospitalar atua como facilitadora das relações e da percepção do sofrimento psíquico. O atendimento cria a oportunidade de diagnosticar e acolher, de forma precoce, fatores subjetivos relacionados ao adoecer como angústias, sequelas traumáticas, conflitos, lutos, desestabilizações psiquiátricas, estados psicológicos como ansiedade, depressão, fobias, estresse, etc.
O trabalho inicial é direcionado ao desamparo dos sujeitos fragilizados com a urgência médica e diante de algo desconhecido. Pacientes e familiares sofrem, no momento inicial da hospitalização, uma destituição subjetiva aguda, ou seja, a admissão lhes destitui da posição de sujeito e os prescreve o lugar de objeto como condição de tratamento. Nessa inversão ocorre uma perda dos referenciais que sustentam a subjetividade, capaz por si só de instalar uma crise de angústia. O que exige do psicólogo uma ação específica: recepcionar, possibilitando um lugar de escuta às questões subjetivas emergentes, reinstituindo ao paciente e à família o lugar de sujeito. Na desorientação causada pela angústia, trata-se de criar condições de fazer operar a função simbólica e levá-los novamente rumo à palavra e a subjetivação.
No momento seguinte, o acompanhamento os conduz a uma apropriação do espaço e da dinâmica hospitalar, produzindo conexões com os serviços e diminuindo a insegurança e o pânico diante da internação. Guiado pela lógica de cada estrutura psíquica o trabalho demarca pontos de apoio e de referência fixos. A estrutura hospitalar é ativamente oferecida para que o paciente e sua família possam servir-se como um suporte, formando uma rede cujos nós de amarração são os vínculos afetivos e transferenciais entre seus participantes. Um trabalho de integração que permite às equipes sustentarem as funções de conter e transformar crises em vínculos de confiança e trabalho coletivo.
CLOVIS EDUARDO ZANETTI é psicólogo e coordenador do Serviço de Psicologia e Psicanálise do Hospital do Coração de Londrina


