ESPAÇO ABERTO
Teologia do trabalho
Dom Orlando Brandes
O trabalho tem sete grandes significados: 1) O trabalho proporciona renda, lucro, sobrevivência, esperança; 2) O trabalho determina o status social da pessoa permitindo ao indivíduo ser reconhecido e valorizado; 3) O trabalho estabelece vínculos de convívio, amizade, relação interpessoal. São os colegas de trabalho, os clientes e fornecedores; 4) O trabalho organiza o tempo: o tempo livre, o tempo de lazer, o tempo da família, o tempo de férias; 5) O trabalho determina o espaço: lugar de trabalho, lugar para guardar o material, lugar para encontros, lugares exclusivos; 6) O trabalho promove a autoestima: realização pessoal, autovalorização, satisfação pessoal, concretização dos sonhos, valorização de si e dos outros; e 7) O trabalho dá sentido à vida porque transforma a natureza e espiritualiza a pessoa.
Precisamos de uma educação para o trabalho e, por outro lado, de uma ''reeducação do trabalhador'', não segundo o ''evangelho do capital'', mas segundo a dignidade do trabalhador e do próprio trabalho. Engels certamente exagerou quando escreveu que o ''trabalho criou o homem'', mas é bem verdade que o trabalho é uma bênção, embora não seja o único e nem o mais alto fim do homem. Deus livra seu povo da escravidão, censura a preguiça, elogia o trabalho (Prov. 31,10-31), prescreve o justo salário (Deut. 24,17, Tg 5,4), exige o descanso. Deus também trabalha (Jo 5,17) e Jesus corrige a obsessão de Marta pelo trabalho (Lc. 10,41), como também Deus já havia desaprovado o trabalho-idolatria no caso da torre de Babel.
Por fim, o apóstolo Paulo escreve: ''Quem não trabalha, que não coma'' (II Tess. 3,10); é preciso ''trabalhar para ajudar os fracos'' (Atos 20,35); ou ainda ''trabalhar para não furtar e partilhar'' (Ef. 4,28). Santo Tomás vê quatro finalidades no trabalho: 1) Produção de bens necessários à vida; 2) Remédio contra a preguiça; 3) Freio à concupiscência; e 4) Possibilidade de partilhar com os necessitados.
Trabalho é uma necessidade, é um direito, é também terapia e realização. Superar a visão escravagista e mercantilista do trabalho é o que precisamos em nossos dias. Em nome da teologia do trabalho é que a Igreja realizou a Campanha da Fraternidade sobre o desemprego.
Em nome da dignidade do trabalhador cabe-nos superar os acidentes no trabalho, a exploração do trabalho infantil, a manipulação da mão de obra barata. A respeito do trabalho vale aplicar a seguinte regra: ''Conhecer o que fazemos, amar o que fazemos, acreditar no que fazemos''. Com o diálogo entre operários e empresários, com a valorização do trabalho não remunerado como é o caso das donas de casa, dos voluntários que cuidam de idosos, das crianças, de marginalizados, realizaremos a missão de colaboradores de Deus por meio do trabalho. Na verdade, somos operários de Deus.
O pecado que clama aos céus é o salário injusto e a exploração do trabalhador (Tiago 5,4). As máquinas trazem lucros mas expulsam os trabalhadores, que se transformam em migrantes e depois em favelados desempregados. Tudo isso é combustível para a violência, as drogas, o alcoolismo, a prostituição. O trabalho é a chave da questão social. Não esqueçamos o valor inestimável do voluntarismo e da gratuidade.
A crise econômica atual está tirando o emprego, o pão e a segurança dos pais de família, dos jovens, enfim, dos trabalhadores. Todos são vítimas da globalização, da corrupção e do consumismo. Estes desempregados são forçados a migrar, a buscar refúgio nas drogas, na prostituição, nos assaltos, etc. São punidos e encarcerados. Como pode haver segurança pública, se os grandes deste mundo, que provocaram a crise econômica não buscarem a ética, o controle estatal da economia, enfim, uma mudança do sistema econômico atual? O império do mal é o culto ao consumismo, à ganância, ao dinheiro. O mundo pode e deve ser diferente. As desigualdades sociais, fomentam sempre mais a miséria, a violência, a iniquidade social. O Pai nosso, quer o pão nosso. Pão para todos.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina
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