Os pilares sobre os quais se erguem todos os edifícios do terreno econômico, ecológico e ambiental se baseiam numa noção simples: questões técnicas devem ser resolvidas por quem as entende em toda a sua complexidade. Não adianta pedir a um engenheiro para fazer uma cirurgia, nem a um médico para construir um prédio. Pelo mesmo princípio a área de energia e meio ambiente deve ser comandada não por alguém que agrade a interesses políticos ou partidários, mas por quem domine a complexidade de nossa questão energética e ambiental.
É triste constatar que o governo atual parece, aos poucos, abandonar o terreno da razão nessas e outras áreas como a troca de especialistas na área financeira e de petróleo. Fato que comprova essa falta de bom senso não é nova, visto os nossos ministros de Meio Ambiente e Energia. Tal situação vem provocando um retrocesso de pelo menos 20 anos em ambas as áreas. Na questão ambiental, por exemplo, voltamos à situação de final da década de 80, onde impera o desenvolvimento a qualquer custo com as conquistas e opiniões técnicas deixadas de lado e muitas vezes descartadas por completo. É o caso da construção de usinas hidrelétricas como as do Rio Madeira em Rondônia e o escândalo da Usina Mauá no Rio Tibagi no Paraná. Isso sem contar as questões legais como a maquiagem e falsificação de estudos de impacto ambiental.
Agora o mesmo governo quer tentar destruir o Pantanal com a possibilidade concreta de licitar a plantação de cana-de-açúcar nas áreas de cabeceira das nascentes daquela região. Essas questões nos fazem refletir sobre quais interesses estão por trás dessas pretensões. Legal e moralmente é inviável essa ideia de plantar cana no Pantanal, além de que a região é patrimônio da humanidade declarado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
No caso de energia elétrica gerada por usinas de grande porte torna-se mais evidente o total despreparo do governo, sem contar a questão técnica atual e moderna que é negligenciada a favor de uma ideologia ultrapassada de mais de 30 anos atrás.
Reportagem da revista Exame de março traz informações sobre a verdadeira energia renovável que poderia fazer o Brasil ser destaque nesse cenário sombrio de recessão econômica. Chama-se ''eficiência energética'' que por muito tempo vem sendo deixada de lado. Isso significa fazer o uso racional da energia e adotar práticas simples como apagar a luz ao sair de determinado ambiente. Os especialistas dessa área a chamam de o principal combustível e que sempre foi o patinho feio da história. É um recurso limpo, barato, disponível e que reduz as emissões de carbono na atmosfera. ''A economia gerada pela eficiência energética poderia chegar a 33 bilhões de dólares na conta nacional de eletricidade dos consumidores até a próxima década. Com iniciativas para o aproveitamento adequado e inteligente, a demanda esperada de energia pode cair até 38%, o equivalente à geração de 60 usinas nucleares de Angra III ou a de seis hidrelétricas de Itaipu'', como salienta a Exame.
Então, por que não é posto em prática pelo governo? Talvez, a resposta esteja nos escândalos frequentes e noticiadas desse governo e sua política desenvolvimentista a qualquer custo e, como indício disso, saliento o caso recente ocorrido na Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Nesse contexto de retrocesso e falta de bom senso, o Brasil vem sendo fragmentado e desmantelado, e nisso poderá estar incluído o Pantanal mato-grossense que gera muito mais emprego e dividendos com o turismo do que um conglomerado de usinas de álcool. Se tomarmos como base o que estão fazendo com nossa Mata Atlântica e sua fauna e flora, não é difícil prever a decisão de nosso presidente e seus ministros. Mas boas notícias existem, pena que isoladas e a maioria fora do Brasil, onde nunca se investiu tanto em tecnologias voltadas à eficiência energética. E espero sinceramente que tais iniciativas contagiem nossos governos, se não já sabemos as consequências que há décadas são anunciadas pelos técnicos e pesquisadores sérios no mundo todo.
MÁRIO LUÍS ORSI é docente da Unifil e pesquisador da Universidade Estadual de Londrina

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