Uma abordagem da crise
Manuel Joaquim R. dos Santos


Existem vários modos de abordar esta crise financeira atual, e inclusive o presidente Lula já a apelidou de vários nomes! Precisamos, no entanto, de encontrar nela as sementes de caminhos alternativos que gerem prosperidade e tranquilidade para todos. Uma crise não é necessariamente sinônimo de desgraça!
A Comissão Portuguesa de Justiça e Paz elaborou um belíssimo trabalho sobre alternativas que podem e devem surgir deste impasse mundial, já chamado da ''maior crise em 80 anos''.
Encontramos lá palavras de ânimo e otimismo falando da oportuna mudança de paradigma na gestão financeira global. Não basta atender apenas às consequências da crise e minimizar os seus ''estragos'' sociais. Se as soluções para a atual crise se limitarem a ''consertar'' o sistema financeiro, tudo acabará por voltar ao mesmo. A ''regulamentação'' a favor da ganância irresponsável voltará a envolver todos os domínios da vida coletiva: ambiental, financeiro, econômico, laboral, político e ético.
É, pois importante que vá crescendo a consciência, entre os responsáveis de que é indispensável alcançar uma maior regulamentação da economia em nível global e que, para tanto, devem-se reconfigurar as instituições internacionais tais como o Fundo Monetário Internacional (não basta apenas muni-lo de mais fundos ou nos tornarmos credores dele!), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, retirando a hegemonia a qualquer país ou bloco, por mais importantes que sejam ou tenham sido.
Como alternativa viável pode ser preferível a criação de uma nova instituição supranacional de controle financeiro global diferente das atualmente existentes de forma a dotar essas instituições de objetivos e meios de ação à altura das necessidades da economia globalizada em que vivemos e da sua governança democrática. Importante que esta instituição se situe no âmbito das Nações Unidas. Deve também ser reforçado o peso da organização mundial do trabalho e aprofundar os programas e práticas que estimulem uma agenda para o trabalho digno.
Diz a dita Comissão que parece impor-se, cada vez mais, a necessidade de uma nova ordem econômica mundial que tenha em conta a realidade da globalização, as necessidades de desenvolvimento das várias regiões do globo, a sustentabilidade ambiental e a coesão social. Os cidadãos não podem ficar ausentes de um processo de decisão com impacto estratégico ambiental, econômico e social.
Devem, portanto ser dados passos no sentido de uma real mudança de paradigma: uma ''economia ao serviço da vida''. Mudança que passa por reconfigurar os papéis do mercado, do capital e do trabalho. Quanto ao papel do trabalho, ocorre citar a autoridade de Juan Somavia, diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ao lembrar o discurso na constituição desta organização: ''O trabalho não é uma mercadoria''. Também o papa João Paulo II, na encíclica Laborem Exercens, recordou o ''princípio da prioridade do trabalho em confronto com o capital'' e noutro passo afirmou que ''... o capital sendo o conjunto de meios de produção, permanece apenas um instrumento''.
Para tal mudança de paradigma, há dois princípios orientadores que deveriam ser também como que motores do funcionamento da economia e da vida social no seu todo: o princípio da sustentabilidade ambiental, econômica e social, o qual implica num forte apelo à responsabilidade social das empresas e o princípio do fundamento democrático da economia.
Lendo o documento da Comissão Justiça e Paz (em Londrina estamos criando a nossa também a pedido do arcebispo dom Orlando Brandes) fica claro que não é pelo fato de não existirem aparentemente alternativas que nos devemos contentar com as malvadezas deste ''neoliberalismo'' que até ao momento só gerou fome e exclusão, alicerçado nos últimos anos, numa exacerbação do capital especulativo.
Tem dito frei Beto, um dos criadores do Fome Zero e agora crítico do governo Lula pela direção política e eleitoreira do programa, que a palavra crise na sua origem nada tem de negativo ou pessimismo. Cabe-nos aproveitar esta oportunidade para revermos exatamente os caminhos de desenvolvimento humano que temos trilhado.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre em Londrina

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