A tela ''Caipira Picando Fumo'' está exposta há décadas na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Admira-me muito que o governador José Serra, tão cioso dos malefícios causados pelo cigarro, não tenha ainda ordenado que o quadro de Almeida Júnior seja sumariamente retirado da exposição. Aos jovens, que costumam visitar museus, é um inqualificável estímulo a tão nefando vício.
Quem não se lembra de ter visto, com olhar nostálgico, a cena de Nhô Tonico, um preto de carapinha branca, acocorado junto à porta da choupana de pau a pique, ao pôr do sol, pitando seu cigarrinho de palha? Sou de uma geração em que o avô, o pai e os tios, figuras masculinas a serem imitadas, passavam o dia a soltar fumaça por suas ventas triunfais. As mulheres, de maneira geral, poupavam suas frementes e delicadas narinas. Isto é, poupavam, até que Rita Hayworth e Marlene Dietrich vieram provar que não havia glamour sem um cigarrinho entre os lábios sensuais.
Os ícones do tal sexo forte não ficavam atrás. O charme de Cary Grant não seria completo na ausência das espirais ascendentes. E Humphrey Bogard com o Pall Mall dependurado no canto da boca? Era o machão irretocável. Figuras de proa como Winston Churchill não se davam ao trabalho de esconder o charuto.
Até mesmo Freud, quem diria, ignorava o símbolo fálico e chupava com gosto a ponta de seu elegante charuto. Quem gostava de rir a bandeiras despregadas também encontrava o mau exemplo desde o tempo do cinema mudo, com Grouxo Marx e Carlitos - até ele, tão cândido e ingênuo - a incentivar esse hábito que as novas gerações descobriram ser mais maléfico do que a tara de Drácula. As invectivas contra os fumantes aparecem até em outdoors, mas nada se vê de mal em chupar sangue.
Vamos aos fatos. O pior de tudo é que esses tabagistas irresponsáveis, verdadeiros criminosos que deveriam estar atrás das grades, colocam em risco a saúde alheia. Não está devidamente comprovado, mas tendo a concordar com tal afirmativa, de tanto vê-la repetida. Contudo, falta aí a coerência exigida. Não há campanha sistemática contra os bebuns. Eles enchem a cara, pegam seus carros, sob risco de cair num bafômetro da vida, e saem por aí a matar velhinhas. Não é só uma especulação. Atropelam e matam mesmo!
Fico pasmo ao verificar outra incoerência, esta de nossas zelosas autoridades. No lugar de proibir o fumo até na casa do cachorrinho, por que não se proíbe simplesmente o cultivo do tabaco? Não pretendo ser mais um idiota da objetividade, mas tenho de admitir que essa medida seria atacar o mal pela raiz. Oh! - dirão os economistas de plantão - e os impostos? Desafio a quem quer que seja a provar que já investigou, mesmo por alto, o destino dessa dinheirama toda. Novo surto agudo de coerência faria supor que essa receita, para nenhum antitabagista de carteirinha botar defeito, deveria ser destinada à tão sofrida área da saúde.
O fumante pobre, que durante toda a vida colaborou tenazmente para enriquecer os cofres da União, caso venha a desenvolver um câncer de pulmão encontrará grandes dificuldades para obter tratamento adequado. Ainda por cima terá de ouvir um transeunte irado dizer que foi bem feito. Plano tão virulento de caça às bruxas só encontra paralelo nas políticas de extermínio de alguns tiranos sanguinários.
Recentes dados divulgados pela imprensa dão conta que São Paulo reúne o maior contingente dos ''degenerados'' que ocupam este texto. Se não me engano, está na ordem de 21%. Nas demais capitais, a porcentagem é menor. Portanto, é fácil concluir que eles se constituem em uma minoria. Está mais do que na hora de se estender aos pobres coitados, destinados a morrer de câncer ou de enfisema, a política de apoio às minorias e aos oprimidos.
JOSÉ CARLOS GUITTI é médico em Londrina

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